segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Novelinha da F1 - Capítulo 14: GP de Monza

Não devo começar o texto de hoje de outra forma senão, agradecendo pelo fato de estar um pouco enganada com relação à minha previsão no post anterior.
Monza foi, para nós que gostamos do esporte, especial, como caberia de ser. Como é de costume de uma das melhores pistas do calendário, tivemos um excelente momento ontem. Não porque contou uma história 100% perfeita para todos. Mas porque marcou uma questão que, de agora em diante, não tem mais questionamento ou dúvida. 

O GP italiano é um templo para muitos, não só para os "tifosi". Bélgica e Itália montam uma dupla de pistas, - recentemente vem juntas no calendário - e que fazem a gente esquecer, por algumas horas, todas aquelas bobagens que a F1 executa entrementes os carros na pista: as punições, as marcações de regras seletivas e etc.
Infelizmente, Spa foi marcado por uma nuvem negra, que ainda paira à espreita. Desligamos por alguns minutos disso para, então, podermos curtir Monza, com a devida proporção.

Sim, eu imaginava que Monza estaria estragada antes mesmo de acontecer. Estive errada talvez pelo motivo que deveria ser perdoável: eu não achei que a Ferrari pudesse não errar neste fim de semana, a ponto de colocar sua dupla de pilotos numa situação irreversível para tentarem a vitória.
O que pode não ser perdoável é que estava dando tudo certo até depois do erro de Hamilton, lá pela volta 40 e tantas e mesmo assim, eu ainda estava insegura.

Essa insegurança tinha nome: a própria Ferrari. Mas eu deveria ter confiado no braço de Charles Leclerc. Na classificação, tudo deu certo para ele. Houve uma pequena confusão. Depois de Spa, qualquer situação de batida agora, renderia uma atenção redobrada. Mais cedo na F3, um piloto australiano decolou, literalmente, depois de passar numa zebra "salsicha" da curva Parabólica, atropelou uma placa e caiu em cima da barreira de pneus. O piloto fraturou uma vértebra, mas saiu andando logo depois do assustador acidente.

A cultura das batidas ainda se faz presente, mesmo uma semana depois de uma morte em pista, e notícias nada animadoras sobre outro piloto envolvido naquele trágico acidente, se fez presente. A chamada da TV trazia alguns dos acidentes da pista no passado. Desnecessário, ainda mais a saber que, muito provavelmente, muito "ex-fã" de F1 pode ter voltado a acompanhar a temporada para saber se alguma coisa nesse sentido ocorreria.
Então, no Q3, em Monza, Räikkönen perdeu a direção no traçado e bateu, resultando em bandeira vermelha e pausa na classificação. Havia 1:45 ainda no relógio quando 9 carros foram para a pista, e protagonizaram uma das cenas mais cômicas desde que comecei a assistir a F1 todo domingo: 9 caras jogando um para o outro a chance de abrirem volta no pelotão. Todo mundo queria o vácuo de alguém. Acabou que só Sainz conseguiu abrir a sua volta.

Charles Leclerc que havia feito o primeiro tempo, permaneceu com ele, para a pole. Sebastian Vettel  logo em seguida, se mostraria infeliz por não ter tido a chance de pegar o vácuo do colega. Mediante o chororô, em especial de Lewis Hamilton, que viu naquela bagunça uma estratégia da Ferrari, deveria perceber que, foi tão sem querer que Vettel tinha ficado apenas com o quarto tempo, sem chances como ele, de abrir volta.

Vettel perdeu ali todo o feedback que deveria ter da equipe logo após a sua ajuda em Spa. Largando em quarto, ele estava a mercê de qualquer coisa, inclusive de ser o maior prejudicado caso houvesse outro plano estratégico na corrida. Era visível que foi uma "baratinada" de 9 pilotos e não um jeitinho da Ferrari. Alguns deles, como Hulkenberg e até mesmo Vettel, foram responsabilizados e chamados para se retratarem com comissários.
Se os pilotos fizeram palhaçada naquele momento, a FIA tratou de terminar o circo com aquela análise besta de buscar saber quem se beneficiou. Fazem as regras sem noção e depois, querem procurar chifre em cabeça de cavalo.

Munido de um P2, Lewis Hamilton chamou atenção para uma urgente mudança no sistema de classificação, encontrando falhas. 
Largaria em segundo. 
E estava reclamando. 
Depois de 12 anos de F1, ele, AGORA, ele veio falar das falhas no sistema de classificação.
A dor no cotovelo devia estar incomodando tanto que eu quase sentia daqui. Quem diria que essa dor ia piorar, com as declarações pós corrida?

No domingo, eu estava achando que se a Ferrari havia abandonado o Vettel na classificação com um velado "se vira aí", temia (juro!) que na vontade de colocar Leclerc no topo do pódio, sacramentando sua realeza, poderiam cometer erros. Subestimei Charles. Isso é irreversível e confesso, muito feio da minha parte.

Importante apontar numa tentativa menos passional possível, para não causar nenhuma torcida de nariz de vocês que estão lendo, algumas coisas que passaram na minha cabeça com todos os eventos de Monza, ontem, serão escritos daqui adiante no texto. 

Primeiro que, em meio ao melhor momento da corrida (que deixo para fechar esse texto) é muito bom não ter nada mais a questionar sobre talentos que eram promessa. 
Outra é saber que um  Hamilton antigo, dado e passível de erros ainda existe, embora isso fique mascarado por um carro extremamente equilibrado, uma segurança e sorte, gigantes. Erros que supostamente foram propositais, deixaram o inglês avesso a fazer qualquer tipo de comentário que não fosse com nuances de inveja. Ele poderia ter dito o quão divertido foi disputar com quem até pouco tempo rendia elogios, poderia dizer o quanto quis ser combativo e o quanto isso revigorou suas energias. Mas escolheu (como sempre) parecer um verdadeiro mau perdedor e arrogante nas mínimas oportunidades que teve.

A rodada (sozinha) de Vettel passou a ser um fato que retirou toda e qualquer possibilidade de defesa, mesmo até alguma argumentação feita pelos seus fãs. Seguindo a "vibe" do Nico Rosberg, quem já tinha o discurso de "segundão" guardado no bolso, sacou agora, em meio à risadas, pedidos de aposentadoria ou prêmios consolação como idas à equipes que possuem carros ruins do grid. 
É fácil aproveitar o mau momento para pisar no tetra campeão sem piedade. Alguns talvez se sentem poderosos o suficiente para incitar esse "fogo" de críticas. Se atrevem a pedir sua demissão, aposentadoria ou entoam gritos dando conta de que este, era uma farsa, e que sempre foi um piloto ruim. 

Ontem, com a segunda vitória seguida, Leclerc merecidamente passou a ser o rei da Ferrari e talvez um dos nossos favoritos - caso já não seja - para as torcidas futuras. Ver o que o garoto fez ontem, foi de encher o coração da gente, a muito judiado pelas tantas "malandragens" da categoria. Ele não foi perfeito, errou sim, algum momento aqui e ali do traçado. Numa dessas, trouxe Hamilton para mais perto dele, e lá na volta 36 o inglês foi com tudo para cima dele. 
Ficamos com a respiração suspensa. Quando Hamilton saiu da pista, o grito do inglês veio prontamente pelo rádio, jogando a culpa no monegasco. Por sorte, Leclerc conquistou tão bem que comissários entenderam que na verdade, não precisava cortar o que vinha fazendo de tão bem feito. Mandaram uma esquecida bandeira quadriculada como alerta e não o puniu. 
A gente respirou aliviado: ainda existia quem queira fazer o bem. Ficamos muito contentes em saber que, uma bela corrida não foi estragada por conta de regras subjetivas. 

Regras essas, que tanto nos irrita por serem muitas vezes questionáveis, são confirmadas como (de novo, no mesmo ano) seletivas, dadas conforme quem está em jogo. Primeiro, roubaram a vitória de Vettel, em uma situação semelhante, em Montreal. Depois, taparam os olhos para uma outra situação semelhante, na Áustria. envolvendo Verstappen. Precisou de uma terceira vez, para aprenderem que basta um aviso. Na quarta - se houver - esperamos que seja o encantador Leclerc, para que eles passem a repensar esse lance de limites de pista. 

É perceptível que estou usando termos muito bons para me dirigir à Charles. É impossível não elogiar. Ele reinou no templo da velocidade ontem. Já estaria nos planos de reinar pela Ferrari, como já deixei claro desde o começo do ano e fechei esse argumento de vez, com a vitória dele em Spa. 
Se ontem foi veloz, astuto, agressivo e firme, também foi maduro, forte e convencido. Ele disse, lá na Áustria que a disputa contra Verstappen mudou a sua postura diante das corridas. Demorou, mas não tardou que isso estivesse à postos de se concretizar de forma eficaz. 
Lutou, não contra o companheiro de equipe. Dessa vez, não precisou da ajuda dele. 
Lutou contra duas Mercedes. Uma delas, a mais poderosa, imbatível e genial aos olhos da maioria dos fãs de automobilismo. A outra Mercedes, ninguém daria créditos, mas teve até chances. Acredito inclusive, que não fez o mínimo do esforço de chegar de fato em Leclerc. Já tinha ganhado de graça uma posição que nem era sua. 

Leclerc criou uma "casca" de campeão. Vettel, por outro lado, já gasto, se afundou sozinho. Facilitou a vida da equipe. O alemão agora tem uma dura etapa a encarar, algo que já ocorreu de forma mais ou menos pesada com Fernando Alonso e Kimi Räikkönen (embora esse último tenha sido muito aclamado na Plazza Duomo na quarta-feira passada): o desprezo, os sorrisos amarelos, as falsidades e as declarações boas de sua importância e competência, até arrumarem um substituto. 
Do lado de cá, o de fora, Vettel segue sem apoio, com muitas críticas e risadas rasgadas, de chacota. Sorte dele que não tem rede social. GPs como Malásia e Hungria em 2015, Silverstone e Barein em 2017 e Bélgica no ano passado, são alguns exemplos, mas não significa mais nada, nem mesmo para a Ferrari e muito menos para quem insiste na premissa Vettel só vencia muito bem, e obteve 4 títulos pois tinha um ótimo carro na RBR.

Há quem encha o peito e delegue seus títulos à Adrian Newey. "Falta um toque mágico que existe Alonso, em Hamilton, que existia em Schumacher e em Senna...". 
O que é esse toque mágico? Nada mais do que uma opinião, um sentimento que, em detrimento da razão, não existe. Juízo de gosto, não está na faculdade do entendimento, já diria Immanuel Kant. Em linhas gerais penso que, se acho que há algo mágico em Vettel e não acho que há em Hamilton, nada mais do que uma opinião que posso até expor, mas não posso (nunca) considerar como verdade universal. Não faz parte de uma ciência, não obedece uma lógica. Se faço a exposição e alguém concorda, saio no lucro. Discurso de convencimento, não é do campo do juízo de gosto. 

Porém há argumentos que não levam a nada. Na mesma medida que se diz que o tetra campeonato de Vettel se dá pela genialidade de Newey, a regra volta para o zero: Newey poderia não merecer esses títulos, pois projetou outros carros que nem sequer chegaram a ser competitivos. Faríamos isso com ele? Seria justo? Porque então, forçar isso para Vettel? Porque anular todos os seus títulos por conta de um acúmulo de erros?
Queriam pilotos perfeitos? E por um acaso, algum existiu?
Tudo isso só se responde com aquela faceta pouco exata: os achismos. 

A crueldade do esportes é que uma hora destas todos experimentam a decadência. No caso da F1, para o triunfo de um necessariamente há de aparecer a derrota do outro. O sofrimento de ver Sebastian Vettel ruir a olhos vistos, não tardará a ser substituído por quem tem bom senso, optando por recorrer a falta de frisson em Leclercs, Verstappens e afins.  
Resta esperar pela decadência de Hamilton e passarmos a considerar a primeira ideia que acompanhou Vettel: só venceu porque tinha o melhor carro. E isso ficou claro, quando saiu da McLaren. 
Retiraremos o mérito das conquistas de Vettel, mas não de Hamilton? É assunto para um outro momento.

Por fim, a era de ouro com o Charles Leclerc iniciou-se na Ferrari e com o melhor jeito: nos braços de seus torcedores, os mais fanáticos da F1. Quando amam, transbordam. Melhor não dizer quando tomam birra. Vamos deixar só a parte boa registrada. 
Foi ótimo sentir um frescor e emoção das promessas concretizando sonhos. Não há dúvidas, o menino de 21 anos ontem pode ter derrotado as Mercedes, e pode estar em disputa direta com Max Verstappen (que teve uma participação discreta ontem) na tabela de pontos, pela terceira (e não primeira) colocação. Mas, o importante e que enche a gente de esperança é que logo logo, teremos disputa para valer desse garoto bonito. Esperamos que a Ferrari não o atrapalhe, pois foi bom e queremos mais.

E obrigada Monza, por mais essa!

Abraços afáveis!

7 comentários:

carlos disse...

Foi formidável o Leclerc dar um chega pra lá do senhor mimimi Hamilton deixando muito nervoso errando. A renovação chegando e vai chegar na Mercedes.
Infelizmente é muito triste o encerramento da era de Vettel que não conseguira um titulo penta mas será sempre assim uma era nasce e termina uma era, esta historia que o Vettel conquistou só causa do Newey discordo foi um conjunto que ajudo a era de Vettel (quatro títulos): a equipe e o Vettel. Esta historia foi inventada por um piloto sem vergonha e sem caráter e também foi responsável pelo fim da Historia da parceria histórica da Maclaren e Mercedes que chama Alonso que espalhou esta historinha que todo mundo seguiu para acabar com o psicológico do Vettel no passado.
Vamos ver ao longo prazo se a Ferrari corrigir as suas incompetências dar ao Leclerc um carro vencedor para ter um confronto com o Hamilton. E também o Leclerc ser o piloto líder neste projeto da Ferrari. Pois a validade de Vettel e Hamilton começam a vencer e precisamos de renovação de pilotos e também não haja ressureição de mortos vivos como a peste sem caráter do Alonso.

Carol Reis disse...

Foi linda essa vitória do Leclerc. Agora já não há mais o que se questionar sobre ele. Garoto tá de parabéns.

Sempre disse isso sobre o Hamilton. O fato dele estar sereno o tempo todo só mostra o quão sossegado ele está, mas ao menor sinal de desvantagem o mimimi começa e fica proporcional à medida que a ameaça aumenta, até jogar a racecard ele já fez. Quem não é fanboy cego percebe.

Triste demais essa situação do Vettel. Ele tá definhando. Se antes já tinha dificuldade p lidar com as mercedes, agora tem que lidar com um companheiro jovem e forte ao mesmo tempo. Sinceramente, também acho que ele não se recupera mais. Tá ali na Ferrari só fazendo hora extra e provavelmente vai encerrar a carreira dele na F1 em 2020. Ele não é como o Raikkonen, que só quer correr em paz, sem politicagem, independente da equipe. Hoje de manhã o Vettel disse que não se importa com as críticas e que está motivado. Duvido muito. A essa altura ninguém acredita mais. Sinceramente, eu no lugar dele iria buscar um psicólogo, mas se for p continuar sendo chutado que nem cachorro morto, melhor ir embora e cuidar dos filhos.

Adoram esquecer que 2010 e 2012 foram disputados. As corridas foram decididas nas últimas etapas e na de 2010 haviam 4 candidatos ao título, mas ok né, o carro da RBR andava sozinho. Aliás, parece que o Vettel é o único multicampeão que teve um carro bom, né? Os outros ganharam títulos pilotando carroças. Quem deu início a essa bobagem foi o Alonso, tentando provocar o adversário (e mordido de raiva pela derrota também). O Alonso em relação ao Vettel é aquela finalista indignada de um concurso de beleza de um vídeo clássico que circula aí pelo youtube.

Carol Reis disse...

Kkkkkkkk o vídeo é esse aqui: https://www.youtube.com/watch?v=t8btkw3Blzg

diogo felipe disse...

Como sempre, belíssimo texto. 😉

Manu disse...

Oi Carlos! Foi formidável mesmo ver a (segunda e agora legítima) vitória do Leclerc.

A história de que Vettel só vencia por um ótimo carro ter sido inventada pelo Alonso, acho que é caso mais de reação de mau perdedor do que de mau caráter. Eu não sei bem o que dizer em relação, à isso pois a mídia detratou muito o espanhol e pode ser que nada disso seja realmente dele. Em todo caso, essa questão de depreciar o rival é algo normal e ocorre com muitos, inclusive tem abatido o LH, que tem, desde sábado, dado declarações muito chatas à respeito da disputa com a Ferrari e com Leclerc.
Mau caratismo mesmo, daqueles de doer, vem das pessoas que tbm não gostavam do Alonso e usam o mesmo argumento para atacar Vettel, anulando aqueles 4 títulos pelo punhado de erros que o alemão cometeu. Uma bobagem, claro.

E sim, com toda certeza queremos e precisamos de uma renovação de pilotos!
Obrigada pelo comentário! ;)

Manu disse...

Carol, estamos mais (uma vez) juntas nessa!

Sobre Hamilton ter dificuldade de lidar com a concorrência e pressão, ele mostra que não é lá essas coisas que descrevem ele constantemente.

A ideia de se esquecer dos fatos específicos para acionar o gatilho das críticas se faz em muitos segmentos: na política, nas artes, no esporte... Se esqueceram de 2010 e 2012, aproveitando de uma costumeira falha de memória e "Vettel só vencia por ter o melhor carro". Ótimo, mas não dá para levar a sério. Até porque todo mundo venceu com carros bons.

Não tinha visto esse vídeo! Hahahahahaha... Por pouco Lewis não protagonizou uma dessas. Depois da corrida ele disse que se não tivesse disputando campeonato, teria batido... Se Leclerc apronta outra dessas com ele, é bem perigoso ele ficar que nem essa tia, aí kkkkkk...

Abraços 'procê'!

Manu disse...

Diogo: obrigada pelo apoio de sempre! "É nois!" hehehehe...