segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Oscar 2019: Uma grande decepção

Desde 2001, eu e minhas irmãs sentamos, uns dias antes do Oscar e "apostamos" nos vencedores. O Bolão, era totalmente palpiteiro e puramente voltado para o achismo. A nossa base eram as sinopses de cada filme e críticas de uma revista de cinema chamada SET. A gente nem se dava o trabalho de "votar" nas categorias de documentários ou edição de som, por exemplo, pois a gente mal sabia do que se tratava alguns deles e obviamente, agíamos como a Glória Pires: "Não sou capaz de opinar". Das 24 categorias, a gente chutava, basicamente tudo, sem muito critério.

Nos anos iniciais da brincadeira, a gente escrevia numa folha os votos das categorias principais, e no máximo tínhamos assistido um dos filmes concorrentes (geralmente, uma animação). Com o passar dos anos a gente modernizou o processo. Passamos a fazer festinha, com lanches e bebidas, sessão de fotos. Passamos a ver um pouco mais dos filmes, desde que tornassem disponíveis na internet e a gente pegava emprestado de quem (quase sempre ilegalmente) baixava os arquivos em formato para ver na TV. Criamos regulamento de pontuação. Regras de aposta: plaquinhas, bloquinhos para anotar as informações de cada categoria. Depois do Oscar, quem fica em último, organiza o evento no ano seguinte. Assim, a coisa foi se aprimorando.
As reuniões tornaram-se eventos, tão demorados quanto o Oscar, quase tão cheio de coisas para fazer quanto ele. Passamos a assistir a maioria dos filmes, dando prioridade aos das categorias principais. Com isso, as discussões ficaram aprimoradas. O tempo de aposta começou a durar tarde inteiras e um bom pedaço da noite, para o desespero dos pais e vizinhos. Passamos a ter slides dinâmicos, abertura de envelopes (como no Oscar), fichas de votação, quiz temático, vídeos de chacota e até memes. 
Com o passar dos anos, nossos gostos ficaram apurados. Não é qualquer filme que a gente gosta. Não é qualquer roteiro bobinho que a gente engole, nem mesmo, qualquer atriz frouxa que a gente bate palma. Os filmes estrangeiros, antes deixados de lado por falta de interesse ou gosto, passaram a ser os que mais queremos ver, e os que mais entretém. Nos dois últimos anos, assistimos todos da categoria e todos eles tinham algo de muito mais especial do que aqueles que concorriam a melhor, na categoria principal.

Esse é o primeiro ano, cujo evento vai ser empolgante, apenas, talvez, pelos lanchinhos e lembranças das besteiras que surgiram nos anos anteriores. (Num deles, levei uma bolinha de plástico na cabeça, depois de ficar contando vantagem que eu ia ganhar naquele ano. E isso, foi filmado. Até hoje, dão risada do meu atentado). Tudo porque agora, a premissa seguida pelos filmes não é contar uma bos história original, mas adaptar histórias recheadas de discursos. 
Comentarei cada um a seguir, e darei a cara a tapa para toda crítica negativa que fizer.

Pantera Negra

- Sinopse: O filme do Pantera Negra segue os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil, onde T’Challa regressa à nação isolada, mas tecnologicamente super avançada de Wakanda. Contudo um antigo inimigo surge e T’Challa é testado enquanto Rei e Pantera Negra, tentando salvar a nação de Wankanda e o restante Planeta Terra.

- Crítica: 18º filme da Marvel. O roteiro é fraco, recheado de clichês óbvios de muitos filmes baseados em quadrinhos. 
Foi considerado o melhor filme da MCU, mas não passa de palanque: tem destaque pela representatividade negra pois coloca todos como ricos, bem apessoados, fortes e poderosos. As mulheres, além de guerreiras, são inteligentes e superiores aos homens. Os  personagens desprezados/secundários são os personagens masculinos e brancos (interpretados pelos excelentes atores, que por coincidência são ingleses também, Andy Serkis e Martin Freeman).
Apesar de considerado o melhor filme da Marvel, ele acrescenta muito pouco (para mim, quase nada) para as histórias que estão sendo amarradas entre si no Universo.

↑ Prós: É muito bem feito em efeitos visuais, figurinos e cenários. As cenas de luta também são bem sincronizadas, e você quase acredita que Wakanda existe, tanto é que fica com uma baita vontade de viver lá. O uniforme do Pantera é um espetáculo. De longe o mais bonito, sem dúvidas. 
↓ Contras: O T'Challa de Chadwick Boseman não é carismático, nem cativante. Ele não acendeu a vontade de "quero mais" sobre o personagem quando apareceu em "Capitão América: Guerra Civil", mas poderia ter a chance de cativar o público com um longa só seu. O vilão, Killmonger, interpretado pelo Michael B. Jordan, além de bem mais forte e apessoado, conseguiu o feito rápido a ponto de fazer a gente querer ele como rei de Wakanda em poucos segundos na tela. Mas logo que aparece a luta por poder nos minutos de conclusão do filme - em que é rapidamente derrotado pelo T'Challa - o ato de se redimir dos "pecados" antes de "bater as botas" foi tosco e piegas. 
A irmã de T'Challa, super inteligente, é mais uma toada da representatividade da mulher negra forte e independente, que já está exaustivo, não só neste filme, como em qualquer um. 

Se vencer, já sabem que não é qualidade, não é arte. É lobby.


Infiltrado na Klan

- Sinopse: Em 1978, Ron Stallworth, um policial negro do Colorado, conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan local. Ele se comunicava com os outros membros do grupo por meio de telefonemas e cartas, quando precisava estar fisicamente presente enviava um outro policial branco no seu lugar. Depois de meses de investigação, Ron se tornou o líder da seita, sendo responsável por sabotar uma série de linchamentos e outros crimes de ódio orquestrados pelos racistas.

- Crítica: Se é para falar de representatividade negra, que faça com propriedade e que seja cirúrgico. E chame o Spike Lee, pois vai enfiar o dedo na ferida deixando escorrer álcool puro dentro dela. Para aliviar, ele vai secar com esponja de aço. 
Oras, acho que é só assim que a sociedade (hipócrita) americana (e porque não, a nossa também) vai "sacar" as coisas. 
Por alguma razão, (idiota, talvez) a academia não gosta do Spike Lee...

↑ Prós: O filme, além de tocar no assunto de uma grande vergonha dos EUA que é a existência da KKK em vários estados, seleciona apenas quem é o vilão ferrenho, quem é em cima do muro, quem diz o quê e não vitimiza os negros, como se todos fossem perfeitos. Ao fim, ainda mostra uma sequencia de imagens atuais sobre a violência que os negros sofrem no país e que não é brincadeira.
↓ Contra: O fato de ser furioso, pode ser encarado como uma abordagem extremista. Também, pelo ponto de vista de quem fez o trabalho pesado em termos de interpretação é o policial branco, interpretado por Adam Driver, pode fazer algum militante/simpatizante das causas negras torcerem o nariz já que não exalta o personagem negro de forma incisiva. Mas nem acho isso um problema

Se vencer, será agradável. É sim, um excelente filme, apesar da postura de crítica social ser o destaque, mais que a arte pela arte.

Bohemian Rhapsody

- Sinopse: Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon formam a banda de rock Queen em 1970. Quando o estilo de vida agitado de Mercury começa a sair de controle, o grupo precisa encontrar uma forma de lidar com o sucesso e os excessos de seu líder.

- Crítica: Começaram errado já pela sinopse. Mas, não me levem a mal, apenas é uma questão de fazer justiça às coisas. Do jeito que se fala, era como se o Queen fosse uma banda "barril de pólvora", prestes à explodir  a qualquer minuto. Talvez não seja bem isso, mas a licença poética para roteiros de filmes biográficos, sempre faz a gente torcer o nariz e não agrada a todos. 
Longe de ser um péssimo filme, ele aposta em situações da trajetória da banda, com mudanças que doem nos fãs, são irrelevantes para quem conhece uns pedacinhos dela, e faz com quem chama o filme de "filme do cara do Queen", querer baixar as músicas em mp3 e ouvir alto no som do carro. Isso tudo é problemático para mim, que está ficando de cabelos brancos e ranzinza antes da hora.

↑ Prós: A narrativa é ligeira, apresenta as melhores e mais conhecidas canções do Queen e conta com um elenco apurado. Rami Malek conseguiu encarnar Freddie Mercury, apesar de quase beirar o caricato. Por pouco, não foi. Para os demais membros da banda, talvez a semelhança tenha ficado apenas em traços da fisionomia ou jeitos de falar, o que requer um pouco mais de observação, algo que ficaria devendo.
↓ Contras: São alguns, talvez mais graves que os já citados, já que depõe contra o filme à questões mais relacionadas à fatos. A imprecisão temporal dos marcos na trajetória do Queen compromete a história a ponto de te deixar um pouco perdido, duvidoso ou revoltado (caso conheça as biografias). 
O homossexualismo de Freddie foi destacado, não de forma explícita (o que é muito bom, diga-se), mas acabou tendo um recorte muito grande, soando forçado já que o assunto está na moda. Encaixado da forma correta, e com as menções de cada disco e fase da banda, talvez, nem tivesse incomodado.
O ponto pior é uma questão externa. O diretor Brian Singer, enfrentou problemas de denúncias de assédio, justo numa época em que o tal "#MeToo" está em voga e as mulheres, acusando até um periquito macho que olha de lado para elas. Mesmo o diretor tendo se afastado da produção e não aparecendo em nenhuma apresentação ou premiação, apareceram mais denúncias e Rami Malek já teve de se posicionar contra o diretor, nem que seja por aparência ou para continuar a ser elogiado e com chances de ganhar mais prêmios.

Se vencer, eu vou rir da cara do Bradley Cooper e da Lady Gaga (embora essa "senhora" vá dizer - de novo! - que o nome artístico dela é em homenagem a banda... #Affff)


A Favorita

- Sinopse: Na Inglaterra do século 18, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough, exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana. Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail, nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes essa oportunidade única.

- Crítica: um trio de mulheres, se pegando nas horas de ócio, e disputando poder entre elas? Parecia chato. Depois de algumas horas de filme, pareceu chato e também super bizarro, a dar conta de que os diálogos não combinam com as vestimentas e a forma de filmar é bem moderna para um filme de época.
A cada ano, o Oscar tem trago um filme que causa estranheza em excesso para competir com outros, relativamente normais. Esse é o esquisitão da lista. Loucaço. Eu fiquei reagindo de duas formas enquanto assistia: com cara de nojo ou com a testa franzida. Nas duas, eu dizia: "meu Deus..."

↑ Prós: Elenco feminino tem enchido o saquinho, mesmo quando a gente não tem um? Sim. Mas se tem algo que salva esse filme são as interpretações do trio principal. Até a dona Emma Stone está bem, e olha que eu não vejo graça nela. De fato, as mulheres seguraram o roteiro aqui. Mostram-se não como fortes e empoderadas. Mas como mesquinhas, manipuladoras, histéricas e desonestas. Acho mais justo assim.
Ah, e os figurinos, são de babar!

↓ Contras: É super esquisito. Mas, para quem tem a mente aberta, é um prato cheíssimo. Eu sou tradicional. Se tivesse linguagem culta, de época e deixasse muita coisa pornográfica apenas subentendida, talvez eu gostasse mais. Mas só talvez.

Pode ser que seja a pedida do Oscar. Esquisito, moderno, elenco feminino que não gosta de homem... Capaz... Diga-se de passagem, é "the favorite" junto com Roma.


Roma

- Sinopse: Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.

- Crítica: Simples, direto, conta uma história de cotidiano, com começo, meio, porém um fim meio aberto. Todo em preto e branco o que pode dar um soninho caso esteja com ele atrasado, ou caso esteja disposto a dar uma cochilada. Não há nada de especial, mas é o filme mais cara de Oscar que todos os outros, pois todos os elementos estão lá: fotografia, uma crítica social como pano de fundo, dramas pessoais, dramas familiares, conflitos, choros e resoluções. 

↑ Prós: Sem apelar para vitimismos, Cuarón conta uma história pessoal, que se passa no México na década de 70, mas que, com o passar do tempo, ela se torna relevante e a tendência é que não envelheça com o passar dos anos. É artístico, pois tem um cuidado em tomadas, cenários e montagem que muitos diretores mais novos tem simplesmente dado de ombros para isso. 

↓ Contras: É simples, conta uma história que pode acontecer com a empregada da sua vizinha, por exemplo. Além disso, o diretor é mexicano, imigrante, fazendo muito sucesso em Hollywood. O que depõe contra ele, é que pode ser medida da academia lhe dar o prêmio para rivalizar o muro do Donald Trump. Então, qualquer ato que dê palanque, é contra as minhas vontades, já que isso torna a arte feita por eles, chata.

Se ganhar, muita gente vai dar razão ao Trump, já que os diretores latinos se não levam estatueta de melhor filme, levam de direção: em 2014, o próprio Alfonso Cuarón ganhou a melhor direção por "Gravidade", Alejandro Gonzales Iñarritu em 2015 por "Birdman", em 2016 ele ganhou de novo, por "O Regresso", e em 2018, Guillermo Del Toro foi o melhor diretor e também levou o Melhor Filme por "A Forma da Água"...
Ah, detalhe, esses citados são todos falados em inglês. "Roma" é falado em espanhol e concorre também à categoria de filme estrangeiro. Se leva as duas estatuetas...

Para não ficar um post muito grande, continuarei amanhã as minhas críticas. Já aguardo os comentários, caso tenham assistido algum.

Abraços afáveis!

PS: comentarei sobre os carros da F1 assim que todos forem apresentados para a nova temporada.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Pontos aleatórios de um janeiro acelerado

Vocês devem ter acompanhado que, mal começou o ano e já tivemos um embrulhado janeiro sob aspectos diversos que justificariam um verdadeiro surto psicótico daqueles mais sensíveis (ou pelo menos, os que tentam ser menos imbecis). Gente (ainda!!!!) defendendo ex-político preso, como se ao iniciar o ano de 2019 tivéssemos perdido a liberdade, as cores e os sorrisos envoltos de pôneis, borboletas e pirlimpimpim do santo homem... 
Gente a defender o governo vigente, dividido em dois grupos: os "reaças" hipócritas e pessoas com um grau patético de esperança no cumprimento de promessas. 
Todos, na minha opinião, são as bestas quadradas de sempre.
Mas, dado a tentativa de ter bom humor, ri de todas as declarações ridículas que li e ouvi dos tipos participantes dessa guerra bipolar. Tudo para manter-me sã. 

Se não bastasse, ainda tínhamos um calor dos infernos. Nossas obrigações sendo feitas com muito desconforto pelo suor. A maioria, em situação confortável. Muito da nossa impaciência se deu pelas pessoas, tanto da esquerda militante, quanto da direita reacionária, em suas simples fotos de passeios no exterior (algumas paisagens com neve) e praias belíssimas (ainda que eu deteste areia). "Crise", eles disseram... Tudo bem, todos merecem seu curtir. O problema era que eles não sabiam, mas eu sim, das desculpas de "as coisas estão difíceis, por isso não os convidamos para a festa", e queixas "não tenho dinheiro para pagar a cirurgia..." ou pior: "se vc votar nele, vamos perder nossos empregos e nossa liberdade e sabe lá o que mais".
Pouco tempo em que a realidade ressurgiu para eles. Para mim, já estava batendo ponto desde o dia 3/01. Mesmo assim, não tardaram de voltar de suas férias e começaram a avacalhação: o tal mês de janeiro mais longo do universo e o retorno às obrigações - alguns em seus confortáveis empregos, sem demissões ou avisos prévios - a reclamar das segundas-feiras, dos chefes, da vida, do fim de semana que não chega... 
O meu mês de janeiro correu como um vento. Tenho ainda muito a estudar e precisava muito que ele  se demorasse mais. Infelizmente, já é fevereiro e eu, desesperada. 
Sim, reclamei do calor, até porque já experimentaram estudar com um calor demoníaco a te deixar sem apetite, preguiçosa e irritada? 
Mas reclamar que janeiro foi longo para mim foi muita insanidade. Já estamos com a mania da reclamação. Precisamos controlar. 

Em vista de uma situação desfavorável, temos de recorrer é algo. Música e filmes eram a solução de meu refúgio, já que, um dos meus esportes favoritos, a F1 está de "férias" e a NFL estava em ponto de se tornar como F1: previsível e chata. 
Terminou ontem, óbvia e sem emoção. Muita gente pode dizer que sou injusta, mas infelizmente, não posso ajudá-los a sentirem melhor. 
Uma coisa é certa e tenho que assumir: nunca mais comparo os dois esportes e peço para trocar um pelo outro. Estão muito semelhantes e me agradando muito pouco. 
A avacalhação veio com os status de redes sociais e conversas com o pessoal por aí? Sim. Mas serve de alerta: "não faça o que estão fazendo, faz mal".

Não ouvi nada novo, mas selecionei músicas que, enquanto estudasse, me ajudasse na concentração.  Não comecei a ler nenhum livro, pois, me falta tempo para isso. Talvez tenha algo irritante que li sobre músicas ou músicos, aqui e ali, mas... Tento relevar a informação.
Agora, os filmes foram um problema. Todo início de ano me dedico a procurar os filmes que estarão nas principais premiações do cinema, e dedico especial atenção ao Oscar. Nos últimos anos, a militância excessiva de pontos sociais e políticos tem tido muito destaque das apresentações do evento. Antigamente, era um artista ou outro que dizia algo, alguns torciam o nariz e passado o momento, todos voltavam às suas mesquinharias. Agora, se não receber um prêmio e não dizer algo "impactante", "ah, você não serve!".

Perdão. 
Generalizei. 
Na verdade, se você for homem, hétero e branco e subir no palco e falar algo que seja coeso, aí depende de quem você é para ser aceito ou não. Ocorreu no Globo de Ouro de 2017 um discurso sobre os problemas civis enfrentados pelo Sudão do ator Tom Hiddleston causou problema. Colegas de trabalho fizeram cara feia para ele de suas mesas repletas de pratos com comidas refinadas e champanhe. A mídia revelou que o desconforto era pelo senso comum de ele tinha usado a história contada, para se vangloriar. O ator é membro da UNICEF e visitou o país e quis falar sobre o assunto crítico da região. No mesmo evento, Meryl Streep defendeu os imigrantes,e disse que sem os filmes teríamos apenas lutas e futebol na TV. Mencionar esportes de luta e o futebol americano, como uma possível "substituição rasa" aos filmes e séries nas TVs foi, para mim, uma ofensa à esse outro aspecto da vida das pessoas. Mesmo assim, foi aplaudida de pé. 
O primeiro: homem, branco, britânico. A segunda: mulher, americana, rica e empoderada. Façam a soma.

Neste ano, as premiações foram representativas: muitos atores e atrizes negras. Em algumas apresentações, houveram indicações à personalidades LGBT.  As atrizes negras eram mencionadas, mesmo quando não concorriam a nenhuma categoria. Mulheres em geral foram homenageadas - por uma carreira longa e pertinente, e outras, nem tanto. Houve quem chorasse, com a cantora que não é nem isso, muito menos atriz, quando esta recebeu prêmios. A coisa, começou a ficar enfadonha. 
Discordei de muitas premiações, especialmente quando acompanhei o filme e achei, trivial ou, desnecessariamente mal feito. Não fiquei olhando: "esse é gay, merece notoriedade, essa é mulher sofrida, merece destaque, esse é negro, e etc..." Sei lá, meu conceito de filme é simples: soube interpretar através de uma narrativa específica? Ótimo, é para isso que estou aqui. Independentemente, se é homem, mulher, negro, gay, latino, asiático... Independente se foi assim que aconteceu, ou "é assim que vamos mostrar na tela, porque é assim que o povo quer". Tem que cumprir metas. Eficiência e eficácia. Contar uma história e ter os melhores meios para ela. Não ficar fazendo engolir qualquer coisa para dar voz e palanque para os outros usarem a seu bel-prazer ou intencionalidade específica. 
Contou a história, passou credibilidade na interpretação? Está bem! Não teve nada disso: história perdeu seu foco, muito porque a atriz ou ator foi inexpressivo. Pena, que bosta!  Mas isso, é critério de gosto. 

Assisti aos 8 filmes que concorrem a Oscar, e vou lhes fazer um pequeno resumo do que achei, inclusive sobre as indicações, num outro dia de postagem.
Mas quero deixar claro o seguinte: nem a arte mais, nos sustenta. Basta querermos um pouco mais para usufruir daquilo, e "puff", a mídia detona toda a nossa expectativa: ou trás uma informação duvidosa sobre o roteiro, uma denúncia criminosa de um diretor, uma música chata pra caramba que é usada como hino de uma minoria social, uma menção à uma pessoa injustiçada pela sua cor, pela sua sexualidade, por ter sido, em algum momento, um calo no pé dos tradicionalistas. 
Não há espaço mais para o movimento "arte pela arte".

Esses dias uma colega, que sempre fez questão de elogiar meus trabalhos acadêmicos, diz que eu me admira e que leu a minha dissertação de mestrado e que adorou, me causou espanto numa publicação dessas infernais redes sociais - estas que transformam todos em monstrinhos que queremos distância ou prender nas jaulas.
A minha dissertação tenta dar conta de uma tese de que a arte não deve ser vinculada a discursos. Eu achava que era uma ideia conservadora, de arte pela arte, mas topei tentar fundamentar em escrita acadêmica. Por agora, ainda tenho pensamentos sobre a escrita, mesmo tendo defendida em 2017.  Encaro essa minha escrita - ainda que falha e imperfeita -, hoje, como um apelo, uma súplica para NÃO levar a arte para o caminho do discurso sempre. Não torná-la chata e pesada como se tivesse que responder à alguma coisa. Para mim, é destruir a sua beleza natural, seja ela de que suporte for: musical, cinematográfico, literário, pinturas, esculturas, teatrais... 
A postagem dessa moça na qual mencionei, era de um grafite num muro de uma cidade: "Arte não é entretenimento!", dizia. 
Me espantei. Ou ela não entendeu nada do que escrevi, ou não leu e fingiu que leu, ou simplesmente, foi falsa com relação ao meu trabalho. Das três opções, tenho "poder" de reverter apenas a primeira opção - explicar o que eu queria com minha escrita e esperar sua reação, provavelmente, contrária às suas expectativas. Ela certamente, não faria mais elogios e apresentaria seu ponto de vista da arte como discurso de contexto histórico-social.
Se fingiu que leu, não posso forçá-la. 
Se foi falsa, paciência. Não forcei que viesse a mim, elogiar o que escrevi. Na verdade, não fiz para que as pessoas lessem e aplaudissem. Fiz porque gosto e era critério final para receber título: o útil e agradável num só pacote. 

Existem coisas nas artes que tocam o nosso coração, sem que saibamos explicar como e porque. A arte está mais relacionada à um critério de sentimento do que um critério racional. 
Nós não somos iguais. As pessoas nas redes, estão perdendo a mão em muitos aspectos sobre humanidades. Estão pegando em armas numa guerrilha absurda, achando que se sabe o que passa na cabeça dos outros e podem, a partir desse pensamento, julgar ou defender. Não se sabe ao certo nem o que se passa na nossa cabeça. Quantas vezes não nos arrependemos de certas coisas que fazemos ou dizemos? Em alguns casos, é irreversível o dano causado. A gente tenta se consolar, procurando a razão que tenha desencadeado aquele infortúnio. A gente se engana com uma dessas conclusões e achamos que foi aquilo. E se não foi?
É incontável o número de indivíduos que, da sua cadeira de frente ao notebook, ou deitado com dedos grudados num smartphone, lê uma denúncia sobre uma pessoa pública e já toma um dos lados da história, como se tivesse só dois caminhos. 
E tem muita gente fazendo isso com as artes. "Ah o cantor X diz isso na música porque ele quer cutucar o Donald Trump". E as vezes até, o oportunista do cantor assume essa postura: "Isso aí, fora Trump!" A multidão enlouquece e ele, ganha notoriedade. Talvez até tenha produzido aquela canção depois de ler um tuíte bizarro do presidente norte americano. Em cólera, escreve palavras profundas numa canção. Mas isso não faz dele melhor, do que aquele que, escreveu uma canção raivosa, simplesmente porque estava num dia ruim. 
Um jovem, de uma cidade pequena, no Brasil, se sente entusiasmado e começa a gritar "fora Trump" também. Sua realidade não tem nada a ver com esse contexto. Ele está errado em absorver dessa forma, a música do cantor X? Não. Mas eu posso morar em Michigan, ser democrata, e não sentir nenhuma reação ao ouvir essa mesma música, mesmo, dizendo coisas que fazem parte da minha realidade.
A arte não pode se restringir a isso. Pois se assim é, ela é pobre e não supre as necessidades da alma, do coração. Não pelo menos, da minha alma, do meu coração. Ela é mais do que isso. Tem que ser mais do que isso. O fato de gostar de guitarra, não me faz obrigatoriamente amar todos os guitarristas das listas do 10 melhores. Você saber tocar guitarra, não te faz melhor do que aquele que arrepia com um solo do instrumento, mesmo que o que sabe tocar, fique dizendo que é um solo mal feito e piegas. 

Eu não sei bem o que esperar da arte nos próximos anos, mas o coração aperta a pensar que mais e mais gente compra a ideia da arte como discurso, como retórica, compara com políticos acéfalos, trás para uma realidade específica ou mistifica a obra como guia de tudo como dogmas. 
Perdemos cada vez mais a sensibilidade e as redes sociais e a mídia, são os demônios sugadores dessa nossa característica humana. Onde é que vamos parar... Tenho medo até de pensar...!

Abraços afáveis!