segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Pontos aleatórios de um janeiro acelerado

Vocês devem ter acompanhado que, mal começou o ano e já tivemos um embrulhado janeiro sob aspectos diversos que justificariam um verdadeiro surto psicótico daqueles mais sensíveis (ou pelo menos, os que tentam ser menos imbecis). Gente (ainda!!!!) defendendo ex-político preso, como se ao iniciar o ano de 2019 tivéssemos perdido a liberdade, as cores e os sorrisos envoltos de pôneis, borboletas e pirlimpimpim do santo homem... 
Gente a defender o governo vigente, dividido em dois grupos: os "reaças" hipócritas e pessoas com um grau patético de esperança no cumprimento de promessas. 
Todos, na minha opinião, são as bestas quadradas de sempre.
Mas, dado a tentativa de ter bom humor, ri de todas as declarações ridículas que li e ouvi dos tipos participantes dessa guerra bipolar. Tudo para manter-me sã. 

Se não bastasse, ainda tínhamos um calor dos infernos. Nossas obrigações sendo feitas com muito desconforto pelo suor. A maioria, em situação confortável. Muito da nossa impaciência se deu pelas pessoas, tanto da esquerda militante, quanto da direita reacionária, em suas simples fotos de passeios no exterior (algumas paisagens com neve) e praias belíssimas (ainda que eu deteste areia). "Crise", eles disseram... Tudo bem, todos merecem seu curtir. O problema era que eles não sabiam, mas eu sim, das desculpas de "as coisas estão difíceis, por isso não os convidamos para a festa", e queixas "não tenho dinheiro para pagar a cirurgia..." ou pior: "se vc votar nele, vamos perder nossos empregos e nossa liberdade e sabe lá o que mais".
Pouco tempo em que a realidade ressurgiu para eles. Para mim, já estava batendo ponto desde o dia 3/01. Mesmo assim, não tardaram de voltar de suas férias e começaram a avacalhação: o tal mês de janeiro mais longo do universo e o retorno às obrigações - alguns em seus confortáveis empregos, sem demissões ou avisos prévios - a reclamar das segundas-feiras, dos chefes, da vida, do fim de semana que não chega... 
O meu mês de janeiro correu como um vento. Tenho ainda muito a estudar e precisava muito que ele  se demorasse mais. Infelizmente, já é fevereiro e eu, desesperada. 
Sim, reclamei do calor, até porque já experimentaram estudar com um calor demoníaco a te deixar sem apetite, preguiçosa e irritada? 
Mas reclamar que janeiro foi longo para mim foi muita insanidade. Já estamos com a mania da reclamação. Precisamos controlar. 

Em vista de uma situação desfavorável, temos de recorrer é algo. Música e filmes eram a solução de meu refúgio, já que, um dos meus esportes favoritos, a F1 está de "férias" e a NFL estava em ponto de se tornar como F1: previsível e chata. 
Terminou ontem, óbvia e sem emoção. Muita gente pode dizer que sou injusta, mas infelizmente, não posso ajudá-los a sentirem melhor. 
Uma coisa é certa e tenho que assumir: nunca mais comparo os dois esportes e peço para trocar um pelo outro. Estão muito semelhantes e me agradando muito pouco. 
A avacalhação veio com os status de redes sociais e conversas com o pessoal por aí? Sim. Mas serve de alerta: "não faça o que estão fazendo, faz mal".

Não ouvi nada novo, mas selecionei músicas que, enquanto estudasse, me ajudasse na concentração.  Não comecei a ler nenhum livro, pois, me falta tempo para isso. Talvez tenha algo irritante que li sobre músicas ou músicos, aqui e ali, mas... Tento relevar a informação.
Agora, os filmes foram um problema. Todo início de ano me dedico a procurar os filmes que estarão nas principais premiações do cinema, e dedico especial atenção ao Oscar. Nos últimos anos, a militância excessiva de pontos sociais e políticos tem tido muito destaque das apresentações do evento. Antigamente, era um artista ou outro que dizia algo, alguns torciam o nariz e passado o momento, todos voltavam às suas mesquinharias. Agora, se não receber um prêmio e não dizer algo "impactante", "ah, você não serve!".

Perdão. 
Generalizei. 
Na verdade, se você for homem, hétero e branco e subir no palco e falar algo que seja coeso, aí depende de quem você é para ser aceito ou não. Ocorreu no Globo de Ouro de 2017 um discurso sobre os problemas civis enfrentados pelo Sudão do ator Tom Hiddleston causou problema. Colegas de trabalho fizeram cara feia para ele de suas mesas repletas de pratos com comidas refinadas e champanhe. A mídia revelou que o desconforto era pelo senso comum de ele tinha usado a história contada, para se vangloriar. O ator é membro da UNICEF e visitou o país e quis falar sobre o assunto crítico da região. No mesmo evento, Meryl Streep defendeu os imigrantes,e disse que sem os filmes teríamos apenas lutas e futebol na TV. Mencionar esportes de luta e o futebol americano, como uma possível "substituição rasa" aos filmes e séries nas TVs foi, para mim, uma ofensa à esse outro aspecto da vida das pessoas. Mesmo assim, foi aplaudida de pé. 
O primeiro: homem, branco, britânico. A segunda: mulher, americana, rica e empoderada. Façam a soma.

Neste ano, as premiações foram representativas: muitos atores e atrizes negras. Em algumas apresentações, houveram indicações à personalidades LGBT.  As atrizes negras eram mencionadas, mesmo quando não concorriam a nenhuma categoria. Mulheres em geral foram homenageadas - por uma carreira longa e pertinente, e outras, nem tanto. Houve quem chorasse, com a cantora que não é nem isso, muito menos atriz, quando esta recebeu prêmios. A coisa, começou a ficar enfadonha. 
Discordei de muitas premiações, especialmente quando acompanhei o filme e achei, trivial ou, desnecessariamente mal feito. Não fiquei olhando: "esse é gay, merece notoriedade, essa é mulher sofrida, merece destaque, esse é negro, e etc..." Sei lá, meu conceito de filme é simples: soube interpretar através de uma narrativa específica? Ótimo, é para isso que estou aqui. Independentemente, se é homem, mulher, negro, gay, latino, asiático... Independente se foi assim que aconteceu, ou "é assim que vamos mostrar na tela, porque é assim que o povo quer". Tem que cumprir metas. Eficiência e eficácia. Contar uma história e ter os melhores meios para ela. Não ficar fazendo engolir qualquer coisa para dar voz e palanque para os outros usarem a seu bel-prazer ou intencionalidade específica. 
Contou a história, passou credibilidade na interpretação? Está bem! Não teve nada disso: história perdeu seu foco, muito porque a atriz ou ator foi inexpressivo. Pena, que bosta!  Mas isso, é critério de gosto. 

Assisti aos 8 filmes que concorrem a Oscar, e vou lhes fazer um pequeno resumo do que achei, inclusive sobre as indicações, num outro dia de postagem.
Mas quero deixar claro o seguinte: nem a arte mais, nos sustenta. Basta querermos um pouco mais para usufruir daquilo, e "puff", a mídia detona toda a nossa expectativa: ou trás uma informação duvidosa sobre o roteiro, uma denúncia criminosa de um diretor, uma música chata pra caramba que é usada como hino de uma minoria social, uma menção à uma pessoa injustiçada pela sua cor, pela sua sexualidade, por ter sido, em algum momento, um calo no pé dos tradicionalistas. 
Não há espaço mais para o movimento "arte pela arte".

Esses dias uma colega, que sempre fez questão de elogiar meus trabalhos acadêmicos, diz que eu me admira e que leu a minha dissertação de mestrado e que adorou, me causou espanto numa publicação dessas infernais redes sociais - estas que transformam todos em monstrinhos que queremos distância ou prender nas jaulas.
A minha dissertação tenta dar conta de uma tese de que a arte não deve ser vinculada a discursos. Eu achava que era uma ideia conservadora, de arte pela arte, mas topei tentar fundamentar em escrita acadêmica. Por agora, ainda tenho pensamentos sobre a escrita, mesmo tendo defendida em 2017.  Encaro essa minha escrita - ainda que falha e imperfeita -, hoje, como um apelo, uma súplica para NÃO levar a arte para o caminho do discurso sempre. Não torná-la chata e pesada como se tivesse que responder à alguma coisa. Para mim, é destruir a sua beleza natural, seja ela de que suporte for: musical, cinematográfico, literário, pinturas, esculturas, teatrais... 
A postagem dessa moça na qual mencionei, era de um grafite num muro de uma cidade: "Arte não é entretenimento!", dizia. 
Me espantei. Ou ela não entendeu nada do que escrevi, ou não leu e fingiu que leu, ou simplesmente, foi falsa com relação ao meu trabalho. Das três opções, tenho "poder" de reverter apenas a primeira opção - explicar o que eu queria com minha escrita e esperar sua reação, provavelmente, contrária às suas expectativas. Ela certamente, não faria mais elogios e apresentaria seu ponto de vista da arte como discurso de contexto histórico-social.
Se fingiu que leu, não posso forçá-la. 
Se foi falsa, paciência. Não forcei que viesse a mim, elogiar o que escrevi. Na verdade, não fiz para que as pessoas lessem e aplaudissem. Fiz porque gosto e era critério final para receber título: o útil e agradável num só pacote. 

Existem coisas nas artes que tocam o nosso coração, sem que saibamos explicar como e porque. A arte está mais relacionada à um critério de sentimento do que um critério racional. 
Nós não somos iguais. As pessoas nas redes, estão perdendo a mão em muitos aspectos sobre humanidades. Estão pegando em armas numa guerrilha absurda, achando que se sabe o que passa na cabeça dos outros e podem, a partir desse pensamento, julgar ou defender. Não se sabe ao certo nem o que se passa na nossa cabeça. Quantas vezes não nos arrependemos de certas coisas que fazemos ou dizemos? Em alguns casos, é irreversível o dano causado. A gente tenta se consolar, procurando a razão que tenha desencadeado aquele infortúnio. A gente se engana com uma dessas conclusões e achamos que foi aquilo. E se não foi?
É incontável o número de indivíduos que, da sua cadeira de frente ao notebook, ou deitado com dedos grudados num smartphone, lê uma denúncia sobre uma pessoa pública e já toma um dos lados da história, como se tivesse só dois caminhos. 
E tem muita gente fazendo isso com as artes. "Ah o cantor X diz isso na música porque ele quer cutucar o Donald Trump". E as vezes até, o oportunista do cantor assume essa postura: "Isso aí, fora Trump!" A multidão enlouquece e ele, ganha notoriedade. Talvez até tenha produzido aquela canção depois de ler um tuíte bizarro do presidente norte americano. Em cólera, escreve palavras profundas numa canção. Mas isso não faz dele melhor, do que aquele que, escreveu uma canção raivosa, simplesmente porque estava num dia ruim. 
Um jovem, de uma cidade pequena, no Brasil, se sente entusiasmado e começa a gritar "fora Trump" também. Sua realidade não tem nada a ver com esse contexto. Ele está errado em absorver dessa forma, a música do cantor X? Não. Mas eu posso morar em Michigan, ser democrata, e não sentir nenhuma reação ao ouvir essa mesma música, mesmo, dizendo coisas que fazem parte da minha realidade.
A arte não pode se restringir a isso. Pois se assim é, ela é pobre e não supre as necessidades da alma, do coração. Não pelo menos, da minha alma, do meu coração. Ela é mais do que isso. Tem que ser mais do que isso. O fato de gostar de guitarra, não me faz obrigatoriamente amar todos os guitarristas das listas do 10 melhores. Você saber tocar guitarra, não te faz melhor do que aquele que arrepia com um solo do instrumento, mesmo que o que sabe tocar, fique dizendo que é um solo mal feito e piegas. 

Eu não sei bem o que esperar da arte nos próximos anos, mas o coração aperta a pensar que mais e mais gente compra a ideia da arte como discurso, como retórica, compara com políticos acéfalos, trás para uma realidade específica ou mistifica a obra como guia de tudo como dogmas. 
Perdemos cada vez mais a sensibilidade e as redes sociais e a mídia, são os demônios sugadores dessa nossa característica humana. Onde é que vamos parar... Tenho medo até de pensar...!

Abraços afáveis!

2 comentários:

Eduardo De Campos disse...

Maravilhoso texto, concordando com muito do que penso sobre a atualidade, essa chatice ativista de muitos, esse vitimismo chantagista, esses interesses escusos travestidos de preocupação com os demais. Nelson Rodrigues disse que "toda a unanimidade era burra", mas hoje a divisão está praticamente empatada, já que todas as partes só querem impor suas razões como absolutas e sem se preocupar com o progresso e paz de todos nós...

Manu disse...

Certamente, Eduardo.
Pessoas como vc sabem, que existem tanto mais para se pensar e usufruir. Prevejo uma decadência absurda entre os nossos pares. Até quem eu considerava minimamente sábio, está caindo na rede dos ativistas, dos vitimismos, dos mimimis... Aos poucos, eu vou me isolando e me calando. Me isolo, para evitar me contaminar. Me calo, para evitar ser julgada mal, e até mesmo, xingada.
Não tenho mais boa fé nesse egocentrismo travestido de bem coletivo. Como dizemos: "o trem tá feio, sô!"