quinta-feira, 23 de julho de 2009

Mensagem

Terminei de ler “Eu sou o mensageiro” de Markus Zusac.
Peguei esse livro emprestado com minha amiga e professora a menos de uma semana, já que estava sem muita coisa para ler nas férias.
Férias passadas, fui apresentada a esse autor, com “A menina que roubava livros”. Um grande livro. Muito bom. O melhor que li nos últimos anos.
“Eu sou o mensageiro” terá um significado diferente. Soube disso ontem a noite, quando li a última frase na última página.
Primeiro Ed, o personagem do livro, ou Edward é um tipo cara normal. Como eu, como vc.
Edward é um nome que me acompanha mesmo. Meu filme de infância: “Edward – Mãos de Tesoura”. Não, não sou uma pseudo-gótica que adora esse filme pela fotografia. Tem sim um ar gótico, característico do diretor, mas não é nada disso que me chama a atenção. É toda a questão em torno do personagem, Edward. A essência do mesmo.
O Ed do livro é um tanto medroso, um “reclamão” de mão cheia. Um ser comum. O foco dele é sempre perceber que não tinha feito nada de útil na vida aos 19 anos de idade. E não tem perspectiva de melhora.
Eu tenho amigos de todos os tipos. Tenho até uma turminha de amigos por correspondência. É isso mesmo: papel, caneta, envelope com endereço e selo, e correio. Carta! Nessa era de internet é bom lembrar que isso ainda existe e funciona. É belo receber uma carta daquela pessoa que vc conheceu por acaso e guardou umas horinhas do tempo dela só para escrever as suas novidades. É ótimo, sempre foi e amo meus amigos que fiz via envelope e papel. Faço qualquer coisa por eles, mesmo nunca ter conhecido pessoalmente ou ter dado um abraço neles. Um dia farei isso, mas não vai mudar o que sinto por eles. Mesmo que hoje nos falemos mais via internet, ainda há os remanescentes das cartas. Aqueles que curtem uma mensagem rápida via email, ganham recados de “estou bem e vc?”, porque acho que é o mínimo que posso oferecer em minha amizade. Precisa de ajuda? “Email-me” na hora, e sou toda “olhos”.
Pode crer, eu gosto disso. Quero que aquela carta ou mesmo um pequeno “scrap” do orkut signifique um momento de felicidade para quem lê. Algo como “poxa, alguém lembra de mim”. Pois é assim que eu me sinto quando recebo algo.
Certa vez um cara postava em um fotoblog contos de um cavaleiro medieval, que era ele próprio. Ele queria meu email porque eu tinha umas coisas de músicas que ele precisava. No msn ele disse que me achava uma pessoa feliz e espirituosa e tal. O cara tinha o dom da palavra e bons argumentos. Perguntou uma série de coisas a respeito das cartas. Contei que tinha amigos e bons amigos. E eu era realmente feliz porque sendo assim eu deixava muita gente feliz. Gosto de por as pessoas em estado de felicidade.
Não deu muitos dias e ele postou esse texto em seu fotoblog:


"Não cavalgou muito além do portão e cruzou com uma comitiva de carruagens com plumas e honrarias. Parou na estrada para dar lugar à caravana. Desce então de dentro de uma carruagem uma moça alta de sorriso aberto e olhos brilhantes. Trajava um uniforme real e disse com voz bonita e suave.
- Oi cavaleiro, procuro o portão da Capital do Reino...
- O portão é logo ali, senhorita!
- Pertences à guarda real?
- Não, mas conheço de perto a Família Real. Do que se trata essa comitiva?
- Me chamo Mensageira, trago mensagens de alegria a todos os reinos
- Alegria? Como podes entregar mensagens de alegria? Alegria é um estado de espírito e não uma mensagem
- Mas é fato - disse a Mensageira - que uma palavra ou um gesto pode trazer uma pessoa a esse estado.
Cavaleiro Andante acreditava naquilo, acreditava que seus atos poderiam trazer um bem espiritual a qualquer pessoa.
- Realmente - disse Cavaleiro Andante - sua jornada é bem semelhante à minha, temos propósitos bem parecidos, procuramos trazer o Bem às pessoas. Mensageira, tenho você como uma aliada e teria prazer em seguir viagem com sua comitiva, se não tivesse que buscar uma outra coisa.
- Obrigada soldado!
- Soldado não, Cavaleiro. Cavaleiro Andante. Talvez nossos caminhos se cruzem novamente. Seja bem-vinda a essa cidade.
Então a comitiva segue viagem e passa pelo cavaleiro que vê que todas as carruagens estavam vazias com exceção da carruagem da Mensageira."

Eu tenho ainda contato com o cara, mas nunca pude agradecer fielmente. Ele não me conhece na real e preferi deixar passar.
O livro “Eu sou o mensageiro” me tocou por isso. Tia e prima leram esse texto e reenviaram como email, dizendo que era sobre a Manu que elas conhecem.
Eu levo a vida com humor, ajudo e tento ser o máximo de prestativa que consigo ser com muitos que conheço. Nem mesmo precisam ser amigos.
E minha colega de sala que diga, meu maior defeito é não dizer “não” quando devo.
Concordo com ela. Outra colega nossa faz e acontece comigo. Nada que muitas lágrimas não me comovam e lá eu vou fazer qualquer coisa por ela. Apesar dela não reconhecer, eu ajudo. A gente nunca sabe se realmente ela por dentro não se sente agradecida. E não faço por nada em troca.
O Ed do livro se rebaixa muito. Eu também, todos nós. Ele é o fracasso total.
“Se um cara como vc consegue fazer o que vc fez, talvez todo mundo consiga. Talvez todos possam superar seus próprios limites de capacidade.” É a frase impactante da última página.
E é esse o lema. Não quero ser a mensageira. Quero ser a mensagem. Assim como todos deveríamos ser.
O mundo todo precisa disso. E se assim for, vai ser bom... E bastará.

3 comentários:

Christian Camilo disse...

muito bacana o texto...
gostei.
Oscar wilde diz que a solidariedade não deve vir somente no sofrimento, pois esse tipo de solidariedade esta contamidado de um medo pessoal de que a tragédia aflija sua propria vida. É o tipo de solidariedade mais baixa que há. É possível acreditar de que ser solidário somente no sofrimento é algo bem egoísta.
Você ao contrário, age de maneira muito rica. Com a mais rica das solidariedades.
Parabens por esta atitude.

Ron Groo disse...

Adorei saber do seu gosto literário. Vou procurar este livro.

Quanto a solidariedade, Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro só é solidário no cadarço.

Tente andar com o cadarço do sapato desamarrado e sempre vai aparecer alguém para te avisar...

Manu disse...

Obrigada Christian pelas palavras!

Groo vc vai gostar do livro, é muito bom!
E, ah, vou tentar sim andar de cadarço desamarrado... ^^

Abs!