quinta-feira, 17 de maio de 2018

Faixa a Faixa: The Number of The Beast

Cometendo o grande erro de me perder no tempo para responder à enquete do Faixa a Faixa, concluí que demorar quase um mês é longe do ideal, mas mostra uma coisa visível: o tempo está correndo e logo, logo amigos, já estamos falando festas de fim de ano... 

Mas sem papo, vamos ao que interessa! Agradeço fortemente os votos de vocês, e como o título já deu spoiler, hoje é dia de falar de um dos discos mais influentes da nossa querida e amada banda, Iron Maiden. 


♫ Nome do álbum: The Number of The Beast


O terceiro álbum de estúdio da "Donzela de Ferro", é um grandioso marco (em muitos sentidos) que completou, no último 22 de março, 36 anos. Não é mais um broto, é um disco do começo da década de 80 que sedimentou a banda como um dos expoentes do Heavy Metal britânico, naquela turma do New Wave of British Heavy Metal, ou em síntese, o NWOBHM. 
"The Number of The Beast" chegou às lojas em 1982. A tradução literal é "O Número da Besta". Como é de se esperar - em vias desse título e a arte da capa - mencionar o cara do submundo é gerar instantaneamente uma polêmica das mais insatisfatórias, seja por extremistas religiosos, seja por críticos mal intencionados que, por utilizar de símbolos usados no conteúdo do disco, alavancam comentários conservadores ou mesmo, acusações de se valerem do tema delicado para buscar publicidade.
Obviamente, o disco foi alvo de ataques de satanismo, propiciando além disso, um nome alternativo para a banda: "The Beast". O termo foi mais tarde usado pelo próprio Iron Maiden em disco de compilações e álbum ao vivo. 
Considerado um dos álbuns mais icônicos do estilo, é sem dúvida, mais um alarde das quais se tornou, em certa medida, infundado, sendo como muitas obras de arte, desvirtuado do propósito estético. "The Number of The Beast" é muito mais do que uma provocação latente contra religiões cristãs ou prerrogativa apologética do satanismo. Ao que parece, estava longe disso. É um álbum transgressor por usar e ousar dessa temática, mas assumir que "arrebanha ovelhas negas para cultuar Satã" é meio forçado. É um despropósito com a arte musical pensar pequeno assim... Mas que acontece, acontece. E com esse álbum e banda, certamente não foi (nem é) diferente, até hoje. Só por exemplo, até recentemente, já nos anos 2000, o Iron Maiden vinha ao Brasil e sofria retaliações das Igrejas Evangélicas, como considerada ainda "música do demo". No mental evolution here, my friends... 

► Arte, Capa e Encarte:


Em linhas gerais o que se vê primeiro na capa é Eddie The Head - o mascote caveirístico icônico da banda - um morto vivo cuja a ideia provém de Derek Riggs, que baseou o visual numa propaganda de guerra durante a Guerra do Vietnã. Originalmente, a banda tinha uma grande máscara de Noh - máscara de uso no teatro profissional japonês - posicionada acima da bateria e que soltava sangue falso pelo nariz, por isso o nome Eddie The Head, na qual foi batizada. Logo ele "tomou" corpo, e passou a compor as capas de singles e álbuns, bem como grandes réplicas físicas nos shows. 

As capas são como qualquer arte, passível de qualquer tipo de impressão e opinião diversa. Talvez, essa seja a grande beleza das artes, sejam elas quais forem: a pluralidade de sentidos. Aqui, um grande Eddie, manipula um diabo, que por sua vez manipula um Eddie menor. Engraçado as pessoas pensarem em satanismo apenas, numa analogia simplista. Para mim, é claríssimo o sentido de que o mal é atribuído a quê? Ou a quem? À que força? Ele é algo muito maior, acima à diabos e à divindades? 
Não sei, mas fica aí, alguns palpites.

Infelizmente, não tenho o disco físico para informar melhor o conteúdo do encarte, mas, temos na foto do tio Google acima, com a imagem dos membros da banda, já dando as caras dos novos indivíduos que passaram a compor o Maiden exatamente neste disco.

► Membros da banda, composições, participações especiais e convidados:

"The Number of The Beast"* tem alguns marcos como escrevi acima. Um deles, marca a entrada oficial de Bruce Dickinson no lugar de Paul Di'Anno. Foi com esse álbum que, Steve Harris, o baixista e mentor do grupo, adotou um enfoque nas canções que priorizavam a potência vocal de Bruce. Há quem diga que Di'Anno não seria tão eficaz em algumas linhas vocais como Bruce. Mais adiante, falo o que penso sobre isso. 
Este álbum também é o último com Clive Burr como baterista e conta com a primeira participação nas composições de um dos guitarristas, Adrian Smith. Pois bem, falta ainda mencionar o outro dono dos riffs,  braço direito de Harris, Dave Murray e fechar a conta dos membros do Iron Maiden de TNOTB*.

O Iron Maiden surgiu em 1975, quando alguns de nós, eu inclusa, nem pensavam em nascer. Steve Harris, ex membro do Gypsy's Kiss e Smiler, resgatou o nome "Iron Maiden" do filme baseado no romance "O Homem da Máscara de Ferro" de Alexandre Dumas. A Dama ou Donzela de Ferro é um instrumento de tortura medieval destes bem feios. Consiste em uma representação da face da Virgem Maria, como um caixão de faraó, só que de ferro e sem pinturas, ou seja uma cápsula de ferro com uma fronte  afeminada, esculpida no topo. O sentido primordial era que a cápsula pudesse ser alta e larga o suficiente para enclausurar um ser humano. Possui dobradiças e abre como um ataúde. Usualmente, existem pequenas aberturas por onde o suposto torturado ou condenado pudesse responder ao interrogador ou sofrer ferimentos através de facas ou pregos. No interior da cápsula havia grandes pregos de ferro que perfuravam o corpo do aprisionado à medida que ele se mexia lá dentro, mas estes não atingiam os órgãos vitais. Fechado ali, ele perderia sangue ou agonizaria por asfixia. Terrível, não?

Steve Harris procurava um jeito mais amplo de se expressar como compositor e então decidiu montar a sua própria banda, dando vida à uma das melhores e maiores do gênero.
Houveram idas e vindas grandes nos membros da banda. Dave Murray só entrou em meados de 1976, mas ganha em tempo de Iron Maiden junto com Steve Harris, estando com ele desde a formação oficial. Adrian Smith só passou a compor o Iron em 1980, Clive Burr veio em 1979, mas permaneceu apenas até 1982 e Bruce chegou em 1981, saído do Samson, após a saída de Paul Di'Anno. Paul era, de fato, meio deslocado dos mentores do NWOBHM. Seu estilo era mais voltado ao punk, até mesmo nas vestimentas e o cabelo curto. Notadamente, foi apenas com TNOTB que a banda ficou mundialmente conhecida de forma enfática. Talvez isso tenha se dado melhor com a entrada do Bruce, mas jamais poderemos cravar isso com toda certeza, a não ser apenas pelo nosso juízo de gosto particular.

Assim sendo, setes faixas do álbum foram compostas pelo dono da fuzarca, Steve Harris, duas delas ele partilha composição com Smith em "The Prisoner" e "The Prisoner" e "22 Acacia Avenue". A música "Gangland" é de composição de Smith e Burr.
Não há participações, nem convidados especiais.

► Produção e gravadora:

A produção de TNOTB é de Martin Birch, produtor e engenheiro musical britânico, conhecido por ter trabalhado nos álbuns do Iron, desde o primeiro álbum deles, até "Fear of The Dark" de 1992, quando decidiu se aposentar, e do Deep Purple, no período de 1969 à 1977. Trabalhou também como produtor de Whitesnake, Rainbow, e até em dois discos do Black Sabbath, o "Heaven and Hell" de 1980 e  o "Mob Rules" de 1981.
A gravadora é a EMI Music, a Electric and Musical Industries Ltd., formada em 1931. A empresa, em 2011, teve problemas financeiros e foi comprada pelo Citigroup. Em novembro do mesmo ano, foi anunciado que o braço de gravação musical seria vendido para a Universal Music Group e a parte da editora musical seria adquirida por um consórcio liderado pela Sony/ATV Music Publishing.

A gravação do disco foi de janeiro à fevereiro de 1982, lançado em 22 de março do mesmo ano (rápido não? Hoje a gente quase se mata de esperar lançamentos...) aconteceu no Battery Studios em Londres. A duração total do disco é curta: apenas 39min11s, e compõe 8 canções ao todo, distribuídas em quatro de cada lado do LP original.  

► Música favorita do álbum e a segunda melhor:

Super clichê, mas a minha favoritona é a canção homônima do álbum e a segunda melhor para mim é sem sombra de dúvidas "Run to the Hills" que amo de montão.

► Faixa a Faixa:

♫ Invaders

Se a capa fala de mal advindo de diferentes forças, a dúvida que paira sobre a quem ou a quê atribuir as mazelas do mundo, "Invaders" dá uma baita chute na canela dos britânicos: abordando a ideia de invasões, sumariamente encabeçadas por vikings aos saxões durante todo o começo da Idade Média. O "Outro" sempre foi a causa dos males de uma civilização na Antiguidade e não diferente, durante a Era Medieval. 
Uma música direta e potente, ótima para abrir à todo o vapor o disco. "Invaders" é também a música mais curtinha do álbum.

♫ Children of the Damned

Quase uma balada, se Bruce tinha soado apenas uma promessa vocal interessada na primeira música, em "Children of the Damned" ele deixa qualquer dúvida de lado, encarnando quase com lamúria uma interpretação digna de sentir de fato, "o filho do amaldiçoado". É aí mesmo que definimos o estilo Bruce de cantar, e sedimenta Iron Maiden como produtores de músicas-hinos intrigantemente atmosféricas e teatrais.

♫ The Prisoner

Com um introito de frases da série original "Number 6" da década de 1960, a letra alude prisioneiros que perdem identidade enquanto estão aprisionados: "Não sou um número, sou um homem livre". Subversão ao extremo, é a primeira canção que tem uma grande ênfase nos solos de guitarra bem rápidos. 

♫ 22 Acacia Avenue

Ah sim, subversão é a tônica, então aqui, com um dos começos mais estilos NWOBHM característicos, a letra dá sequencia à saga da prostituta Charlotte, mencionada pela primeira vez no álbum de estréia do Iron Maiden, "Killers", em "Charlotte the Harlot".
É a primeira canção que tem diferentes atmosferas e desníveis da harmonia. Não chegando a perder o rumo total da proposta, e é acelerada e quase operística pelo vocal, ao mesmo tempo.
"Twenty twooo, avenuuuue" é a segunda música mais longa do disco, com 6:34.

♫ The Number of the Beast

Sentam que vou rasgar um pouco da seda para ela. Foi a primeira impressão/audição que tive de iron Maiden e então me "encontrei" neste mundo metaleirístico de forma que permaneço até hoje. 
A música foi escrita inspirada em um pesadelo de Steve Harris após ver o filme Damien: Omen II ("A Profecia II", aqui no Brasil). Há uma relação com a história do poema "Tam o' Shanter" também.  A canção é bastante conhecida pelo estridente grito de Bruce Dickinson segundos após a introdução, também narrada. 
A ideia dela como abertura era de ter o ator de filmes de terror Vincent Price para ler o texto. No entanto, de acordo com Dickinson, Price disse que não faria nada por menos de 25.000 libras. Para não ter que pagar tudo isso, a banda foi obrigada a contratar um locutor que lia histórias de terror na rádio britânica Capital 95.8. A tal descrição que é de arrepiar os cabelinhos do braço, foi tirada diretamente do livro Apocalipse (12:12) e (13:18):

"Woe to you O earth and sea for the Devil sends the beast with wrath because he knows the time is short 
Let him who hath understanding reckon the number of the beast for it is a human number
Its number is six hundred and sixty six..."

(Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo) (Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é um número do homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis).

É preciso mesmo explicar o que é essa música? Ouçam, e sintam.

♫ Run to The Hills

Por alguma razão eu fico super empolgada com essa música, e ela me coloca para cima. A letra, não tem nada que induza isso, a não ser o ritmo, talvez. O tema é a chacina de nativos americanos na corrida para o Oeste, presumidamente.  Seu tom é o mesmo do tipo Iron característico, com refrão dobrado, quase que como um hino que moveria multidões. Ao vivo isso, eu choraria copiosamente, tenho certeza, por ver uma platéia cantando junto.

♫ Gangland

Rápida e diretona é segunda canção mais curta, assim com "Invaders". A letra entoa temas de morte e assassinato numa terra distópica. Uma rápida canção, a única não composta pelo Steve Harris, mas que não por isso, não tenha seu valor.

♫ Hallowed Be Thy Name

Se a intenção era abrir o álbum com uma canção direta e bombástica, fechar com uma bem escrita, com uma atmosfera densa e complexa, sendo profunda e bem executada, bem... Eles conseguiram o feito e com muito sucesso. "Hallowed Be Thy Name" resume o apelo do álbum: letra potente, vocais poderosos, melodias encantadoras, atmosfera e climas que atingem mais que apenas um sentimento, riffs rápidos e precisos, bateria e linhas de baixo dando a base rimada perfeita. Ainda  que seja 7 minutos e 10, você nem percebe que é uma canção longa. 
Apesar de não ser um álbum conceitual, a ideia de perguntar-se de onde o mal vem, é atenuada na letras: "Se existe um Deus, porque ele me deixa morrer?"...

► Porque desgosta de alguma canção do álbum:

Não desgosto de nenhuma. São todas excelentes. O álbum é o meus favoritos do Iron Maiden, seria um ato meio besta de minha parte torcer o nariz para alguma das músicas. 

► Uma história sobre o álbum, como uma questão pessoal, uma curiosidade:

Sobre esse álbum, penso coisas específicas. Mencionei no começo do texto de que Harris moldou as canções e o disco para o estilo vocal de Bruce e prometi dizer o que pensava sobre, certo? 
No documentário sobre o álbum, parte da série Classic Álbums da BBC, Dickinson conta que o produtor Martin Birch forçava ele a cantar durante várias vezes as quatro primeiras linhas de "The Number of The Beast", o que durou muitas horas todo o processo. Todo esse treino culminou em um tom cada vez mais estridente do grito no começo da música. 
Esta é a minha música favorita do álbum. Quis lá o destino que essa fosse também a minha primeira impressão da banda. Conheci Maiden através dessa canção, com pouca idade, talvez com alguma repetição do Rock in Rio na tv, por conta do retorno do festival em meados de 2000. Eu lembro de ter contato mais expressivo com a canção com uns 11 anos mais ou menos, em tempo de estar virando pottermaníaca e sonhar com a carta de Hogwarts avisando que eu era um bruxa e estudaria em Londres... Isso não parece muito tempo, mas é necessariamente o fim dos anos 1990 na qual me refiro, uma época em que internet era coisa rara e eu só usava na escola. Poucos anos depois eu realmente me inteiraria do que era o Iron Maiden, tentando, à duras penas, conhecer o álbum completo com uma lenta e domiciliar internet discada. Isso aconteceu antes dos meus 14, o que já faz, 17 anos. Não é pouco, percebam.
Mas só mais tarde, já com um certo gosto mais apurado e conhecimento maior das coisas que envolviam música, soube dos álbuns anteriores à TNOTB e claro, de Paul Di'Anno. Naquelas eras, Iron era Bruce e vice-versa. Não tinha maturidade ainda para procurar saber de tudo de uma banda, até porque o tempo era curto e a internet demorava a entrar e prendia o telefone e toda aquela burocracia inexistente hoje. Revistas especializadas, era difícil conseguir. Perceber as evoluções de álbuns de estúdio, composições, técnicas musicais e muito menos que a mudança para um outro vocal... Blá! 
Particularmente sim, ainda acredito que Bruce é Iron e a sua presença deixou a coisa toda redonda, sem pontas soltas. Mas com o tempo, a gente vê sim certa contribuição importante de Di'Anno. Mas que certas canções interpretadas por Paul feitas com Bruce depois, ficaram melhores... Ah, admito que sim! :D

Assim como ocorreu de mencionar na postagem sobre o "Paranoid" do Sabbath, há uma certa vergonha velada em não possuir o álbum físico de "The Number of The Beast". O único álbum que tenho do Iron é o "Virtual XI", um disco extremamente duvidoso. A razão é única para não ter esses discos: falta de grana própria, patrocínio para adquiri-lo ou boa alma para presentear.

► 5 novas sugestões de álbuns para a votação:

Sem nenhum voto dessa vez para o Rammstein, eles saem da enquete, assim, como foi o caso do Pantera. Apareceu em duas das enquetes, e teve um ou nenhum voto, eu opto por reavaliar a opção. Com isso, teremos duas novas adições:




Os votos computados serão apenas os do link acima. Sugestões para as próximas enquetes, podem ser comentadas. Voto, só pela enquete. Tanto é que deixo como opção votar em mais de um dos álbuns e ainda, que seja anônimo. Não tem esquema, basta clicar no álbum (ou álbuns) e ser feliz.
Prometo que em 15-20 dias, volto com a vencedora para mais uma postagem. Dessa vez, não quero demorar muito, pois é injusto com quem acompanha o Faixa a Faixa.
Espero que estejam gostando. Sugestões, pitacos e comentários, please, leave a message, aqui, ou na página do blog, no Facebook.

Abraços afáveis!

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