segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Chapter 14: GP da Turquia

"Hoje foi um péssimo dia para quem odeia Lewis Hamilton", disseram no Twitter. E é sobre isso e outras coisas que vamos falar aqui, hoje.

Podem ficar sossegados. Eu não mudei de opinião, garanto.

Meu fim de semana foi corrido; quase não soube o que acontecia ou deixava de acontecer nos treinos livres. Apenas percebi que as Ferraris estavam muito próximas e ambos os pilotos, fizeram bons tempos. A não presença de Mattia Binotto teria surtido resultados muito favoráveis? Talvez fosse questão de ilusão, mas que parecia que sem a sua supervisão, a metade dos problemas estavam facilmente solucionados, isso parecia. Era questão de tempo para confirmarmos isso na classificação e no domingo.

Havia algo estranho para todos nós, torcedores ou não da Mercedes: nem Valtteri Bottas nem o principal piloto da equipe não pareciam ter encontrado o jeito certo de pilotarem na Turquia. Digo estranho pois, até o fim semana em Ímola , o discurso mais notório e que tinha mais adeptos era que Lewis Hamilton, por exemplo, é o tipo de piloto que se adequa e sabe fazer excelentes corridas com QUALQUER tipo de carro. 

Com dificuldades de encontrar a temperatura ideal dos pneus, ele e tantos outros experimentaram uma - ou no caso de alguns - várias rodadas pela pista no circuito de Istambul. Ainda por cima, choveu. O produto que usaram para deixar o asfalto novo mais aderente, com a água da chuva, deu um toque especial aos TLs, e à classificação. Deixou a coisa divertida, mas também, perigosa de tão escorregadia. (Um dado besta: a galera torce tanto por chuva, que quando tem, começam a chiar...)
Por sorte, nada de grave aconteceu. Uns atrasos na classificação, e umas surpresas, e só. 

As chuvas nas corridas separam quem é piloto bom de piloto mediano? Sim. 
Sempre? Não. 
Por isso, pela classificação, algumas ideias corroborariam com argumentações sobre Fulanos serem melhores que Ciclanos. Na corrida, o ritmo seria outro, e dependendo de quem fosse o grande do sábado, e o fracassado do domingo, a culpa seria dele, ou do carro.
É mais ou menos assim: se tenho o Mickey Mouse correndo de Mercedes, e ele foi mal na classificação, a pista estava "inguiável". Se o Pato Donald está revoltado dentro do carro da Ferrari, é bem possível que se diga não vive uma boa fase. Eu tenho plena consciência que meus exemplos foram horríveis, mas eu não queria ter mencionado nomes específicos, para não ficar falando mais do mesmo. Encarem como exemplos aleatórios.

Porque não reforçar pela milionésima sexta vez a mesma coisa? Por que o GP na Turqui já foi isso. E vocês já sabem o que eu acho desses comentários seletivos sobre "esse melhor que aquele". Vou gastar o vernáculo? Não acho que compensa. Nem vou alugar o tempo de vocês com análises maravilhosas. Não tenho tal capacidade.

Sim, 2020 está atípico: tudo está mudado e teve de ser feito às pressas. A gente não tem paz. Vivemos sob tensão. Só num ano como esse Lance Stroll faria a pole, diriam.
Não teria muito a ver com o ano. Teria a ver com as circunstâncias - chuva e timing certo para abrir voltas. Além disso, o carro da Racing Point é bom. Talvez Lance não seja, mas isso não parece ser mais do que (rasa) opinião de muitos ou poucos - muda como a direção do vento. 

O fim de semana todo indicava que Max Verstappen seria o pole position. 
Eu quase me iludi que não fosse uma corrida vencida pelo Lewis por chances providenciais e roteirizadas. 
Eu quase achei que iam fazer muito para que ele tardasse o somatório ideal, evitando que fosse campeão mundial faltando ainda três corridas para o fim do campeonato. 
Eu quase achei que, pela temporada ser mais curta, fosse "mais difícil" para Lewis ser hepta, como disseram no começo de julho. E eu neguei isso no começo da temporada e sempre chamei ele de "heptacampeão". De repente, me iludi.

Confesso: senti muito idiota em ter acreditado nisso. Claro que Lewis não teria uma corrida ruim, do nada. Claro que não!!! Podia ter chovido canivetes. Podiam ter espalhado pregos na pista. Ele ainda venceria com os quatro pneus furados. 

Vocês assistiram a corrida. Na largada, ele até patinou, mas não fez como seu companheiro. Esse sim, teve o antagonismo perfeito: Bottas rodou bastante, do começo ai fim e foi humilhado com memes e comentaristas fazendo chacota. Lewis esperou as situações ficarem favoráveis. E tudo se abriu para ele, como na cena do Moisés e o Mar Vermelho. 

Verstappen não era mais protagonista desde sábado, as Racing Point faziam corridas consistentes até se perderem depois de suas paradas e precisarem "correr atrás do prejuízo". Kimi Raikkonen, que tinha dado show na classificação, tinha perdido rendimento e seu companheiro Antonio Giovinazzi foi o primeiro a abandonar a corrida. Sergio Pérez dava sinais de que estaria no pódio. Isso garantiria a ele a segunda chance numa equipe em 2021. Quem também parecia ter tomado um bom jeito era Alexander Albon, mas lá pelo meio da corrida, já não havia tanta expectativa com ele.

Por falar em expectativa, achava-se que as Ferraris teriam mais um dia para esquecer. Depois de uma classificação morníssima - Sebastian Vettel fez o 12º tempo e Charles Leclerc, o 14º - a variante "sem Binotto" não tinha resultado ali, mas poderia ter na corrida.
E assim foi: Vettel fez uma largada incrível. Uma coisa de louco. Logo, Seb era quarto, e terceiro no final da primeira curva. Espetacular! E ele se manteve por ali por muitas voltas até fazer a troca de pneus.
Perto das voltas finais, seu companheiro, Leclerc já tinha colocado o carro de lado e tomado a sua posição. O monegasco iria ao pódio, em terceiro. Nestas condições, os caras ficavam muito próximos e pareciam de fato, uma dupla de pilotos da Ferrari. 

À essa altura, Lewis já tinha se desfeito de Pérez e Stroll tinha feito uma parada voltando em sétimo. Hamilton se manteve na pista, parou uma só vez e chegou com os pneus intermediários, carecas. Em primeiro! Largou em sexto! 
Como era possível tal mágica? Tudo é possível para Lewis Hamilton. Não é sorte, não é simples talento. É uma genialidade., sem explicação, não é? Só pode ser sobrenaturalidade mesmo. Batotanto na tecla aqui que existe outras coisas, mas falo para as paredes, não é mesmo?
De que adianta, se não convenço?

Na volta final, o piloto da Ferrari quis mais. A sede ao pote lhe fez errar: Leclerc atacou Pérez disputando a segunda colocação e viu o companheiro Vettel tomar-lhe o pódio. Binotto deve ter xingado muito, assim como o monegasco se revoltou no rádio pós corrida. 
A questão é que, com Vettel perto, Leclerc realmente está em perigo. Isso explica porque tantas corridas ruins do alemão aconteceram neste ano e quantas delas Leclerc pareceu carregar o "carro nas costas". 
Essa narrativa foi repetida bastante pela mídia especializada. Não existe implicância, nem sabotagem velada? Então, devem estar certos... 

No mais, foi bom ver Vettel de volta ao pódio. É redentor quando as lutas são recompensadas. 
Mas isso não saltou aos olhos para muitos, pois Lewis terminou a corrida e fechou as duas mãos no troféu da FIA 2020.
 
Heptacampeão. Com 3 corridas ainda por acontecer, ele ficou emocionado com o feito e deu uma aumentada na dificuldade da conquista, como tem feito desde... sempre!

Não havia dúvidas que ele conquistasse o sétimo título. Eu não coloquei dúvidas pois, já perdi a vontade de ver coisas diferentes acontecendo na Fórmula 1. Está confortável agora para boa parte dos que acompanham F1, que Lewis seja o maior e que continue aí, por mais 10 anos, se for o caso. 
Muita gente está tão careca quando os seus pneus ontem de acreditarem fortemente na sua capacidade em ser o melhor piloto que já correu na categoria. Essa história vende e tem adeptos. E do jeito que está sendo redigida, vai ficar bonita para a futura geração se volar para ela, e conhecê-la. 
Pros infernos quem coloca problemas nisso, quem perdeu o tesão pelas corridas porque já sabem, de antemão, que ele vai vencer até com uma das mãos amarradas nas costas. Oras, já venceu com três pneus e com todos eles gastos numa corrida escorregadia. Só falta mesmo, abrir um mar ao meio.

Ele já bateu vários recordes importantes, tem o melhor carro do grid, uma equipe que está comprometida com ele em 90% do tempo de trabalho, um companheiro totalmente anulado e pressionado a ser o segundo (o que faz dele uma piada) e ainda tem um extra pista que impede sofrer qualquer tipo de crítica a sua pessoa. 
Ano passado, Lewis foi no programa de entrevistas, The Graham Norton Show, da BBC e o tempo todo, ele vendeu a história dos sacrifícios e as dificuldades em ser o melhor do mundo, pela então, sexta vez. Nesse link aqui, vocês podem assistir um trecho e o que mais me fez fazer "uau". Quando o comediante Ricky Gervais pergunta sobre reflexos e ele responde com "I'm lucky", My reaction times are pretty good...", seguido de que mantém o tempo todo o foco no ser o melhor na F1, e que isso o afasta da família e tal. Seis anos, de toda esse comprometimento 100%, tinha que dar resultado, não é?
Os fãs ficam em polvorosa.

"Hoje foi um péssimo dia para quem odeia Lewis Hamilton", disseram e comecei com isso. Não, eu não odeio Lewis. É sério! Eu confesso que não gosto quando pintam ele como perfeito. Mas odiar? Acho que nem perto. 
Desmereço seu feitos? Parece que sim, ou assim penso que sou "traduzida". Por um caso particular, por não sentir que e é tudo isso parece que eu o desmereço. 
Tenho plena consciência que Kimi é o meu piloto favorito, mas eu não faria (e nem fiz) nenhuma apologia ao ao seu talento.  Não farei pelo Lewis. 

Eu não gosto de saber das coisas antes delas acontecerem. Desde julho sabia que em 2020 era mais um ano para Lewis ser o maior, inigualável, imparável. Seria hepta fácil e eu não deixei nenhuma vez de chamar ele assim. Em 2021, ele passará Michael Schumacher em títulos. Será oito vezes campeão e vai ter mais uma turma fazendo comparações pautadas no gosto pessoal e sendo colocadas no grupo das pessoas chatas, velhas e racistas. Será inevitável. 

A tara pelo cancelamento é uma manifestação do ódio à alteridade, ao outro, que todos vivem ou são direta ou indiretamente atingidos. Num mundo de máscaras, o homem aplaude o vil e incompreende aquele que mais se assemelha a ele - o imperfeito, com falhas. É uma situação inteligível: o inferno são os outros, já diria Sartre. E é bem isso: "pense fora da caixinha", eles clamam,. Mas basta um pensar fora dela, que o tiro vem pelas costas, certeiro. Generaliza-se e reduz-se o vizinho sem pensar. Na pressa por liberdade, opta-se pela escravidão: suas próprias escolhas ficam em suspenso e o errado são os outros, por isso condenáveis. 

Não digo que sou privilegiada por ver a conquista de todos os títulos de Hamilton. Eles não me fizeram sentir nenhuma emoção, embora, daqui uns anos, eu vou dizer que vi eles acontecerem, assim como vi os dois últimos do Michael Schumacher, que vi os dois do Fernando Alonso, e etc.  Sim, me emocionei com a conquista do campeonato pelo do Kimi. Chorei mesmo, porque 2007 foi um ano complicado para mim. Eu achei bonito todo o choro de Sebastian Vettel todos os quatro anos. Mas além disso, achei bacana os título conquistados, é só. 
Vi Hamilton emocionado ontem, mas não senti o que já senti com a Fórmula 1 antes. 

Eu disse no começo do texto que não mudei de opinião. Eu acho, ainda que exaltado demais, bom que alguém tenha ficado em êxtase por ontem, mas eu me acho incapaz de escrever qualquer coisa que faça jus a grandiosidade do que deve ter sido o domingo no circuito de Istambul. Para mim, foi uma corrida qualquer, em que Hamilton me causa inveja: queria que todos os meus esforços fossem recompensados como é para ele. 
Vou tentar ser menos ranzinza: maior que títulos, que disputas (que não existem mais), que analistas fazendo conjecturas magnânimas sobre números e gráficos... É quando esses caras se fazem Homens - mesmo que seja para ficar bonito, na foto, com ou sem a intenção disso - que algumas coisas façam sentido.
Que seja! É bacana que as pessoas se sintam em êxtase. Tomara que entendam tudo que isso implica. 

Assim, fecho o texto com uma imagem simbólica. 


Espero que estejam todos bem. 
Abraços afáveis!

2 comentários:

Mário Paz disse...

Depois de algum tempo, volto a esse espaço, o único onde posso me manifestar sem ser apedrejado e acusado de herege e outras coisas mais...já exaurido após o sétimo título consecutivo de um carro Mercedes, não sobrou muita coisa pra falar, e o sétimo título de Hamilton diz muito mais sobre a atual fase da F1 do que sobre a capacidade de Lewis...as mesmas ações produzem os mesmos resultados, portanto a excelência Mercedes aliada a falta de oposição de um companheiro de equipe, dado que Botas chegou a terceira temporada sem disputar o título, continuará laureando o "mito" com uma coleção interminável de títulos...a continuidade dessa hegemonia fortalecerá o mito do piloto imbatível ou haverá um ponto de inflexão onde alguns destoantes questionarão se esse não será apenas o novo normal da F1 no futuro, uma espécie de monopólio tecnológico de um conjunto Piloto/equipe/motor, hermético, duradouro e poderoso o suficiente para subjugar por décadas os demais competidores ?

Manu disse...

Mário, obrigada por ter voltado. Aqui, de fato, apedrejado não será, pois eu tendo a aceitar todas as visões, pois são todas possíveis.

Eu não saberia te dizer com exatidão (até porque só o tempo dirá), mas eu vejo a F1 atual, assim como vc disse - "uma espécie de monopólio tecnológico de um conjunto Piloto/equipe/motor, hermético, duradouro e poderoso o suficiente para subjugar por décadas os demais competidores".
Sabendo disso, pegam a narrativa do talento do homem por trás das conquistas e o colocam num pedestal, como estamos vendo, há pelo menos 4 anos. É mais simples assim. Agora todos veem ele como imbatível e sempre acreditaram que ele era capaz de tudo que conquistou e mais um pouco.
Coloque ressalvas nesse discurso, e experimente ser massacrado.

Volte mais! E obrigada!