terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Semana de Oscar: O que pode ser descartável?

No domingo dia 26 ocorrerá o Oscar 2017. A categoria principal de melhor filme tem como indicados 9 filmes dos quais o favorito é o musical La La Land - na minha opinião, o mais fraco dos nove.
Costumo pensar o seguinte: Oscar, assim como muitas premiações mais populares, indicam o que lhes convém. Além de convir à academia de cinema este filme e não aquele, acontece uma espécie de lobby com aqueles que são forçosamente popularizados. 
De uma forma diferente do Grammy por exemplo (que eu acho uma premiação ridícula), o Oscar ainda dá para torcer e peneirar os indicados até encontrar alguma coisa "útil". Em virtude disso, o que eu penso é bem simples: o que vence o Oscar é bom que conheçamos, mas não necessariamente é o que gente mais gosta. 

Está sendo esse o caso dos nove indicados: "La La Land" é totalmente descartável. Não é um péssimo filme, mas a comparação com os demais é inevitável, já que eles estão colocados lado a lado. Comparado ao "Fences" cuja a trama é uma família de um ex jogador de beisebol, negro e pobre e sua relação com a esposa e filhos, ele não tem o drama e a simplicidade e naturalidade com as quais Denzel e Viola contracenam, por exemplo. 
Se falarmos de "Hidden Figures" com três mulheres negras mostrando seus valores intelectuais na NASA, como comparar "os sonhos" delas com o volátil (e até fútil) sonho de Emma Stone no La La Land?
Como não se emocionar com a realidade escancarada de "Lion" que conta o retorno de um menino indiano perdido de sua família e adotado por um casal de australianos? 
Mesmo comparado à "Manchester à beira mar" com um único personagem perdendo a família de forma trágica, se tornando uma pessoa estranha, perdendo o irmão, de uma doença degenerativa, tendo de lidar com um sobrinho de repente ainda tem muito mais espaço para ser ainda mais tocante. 
Ou "Moonlight" que trata de forma direta sem abusar do dramalhão e dos clichês para elevar o tema envolto da tríade: negro, pobre e homossexual de um menino que se desenvolve de forma simbólica, sem nudez, sem violência exacerbada, sem discurso vitimista apenas sendo um filme de profundezas de sentidos. Comparativamente todo o colorido feliz e musical do longa favorito fica bem volátil.
"Arrival" é ficção científica. Se no passado o Oscar bateu palmas para um "Gravidade" simples e sem trama complexa, me espanta muito que "A chegada" - muito mais profundo e com uma mensagem muito interessante - seja pouco exaltado. Mas são outros tempos mesmo. 
Resta "A qualquer custo", um faroeste moderno simples, direto e rápido. Jamais vencerá não por ser ruim, muito pelo contrário. Mas por pensar que Tarantino fez "faroestes" com propriedade em duas edições de Oscar e foi desprezado, o que esperar para esse longa com Jeff Bridges?
A categoria sempre trás um filme que envolva guerra, algo que os americanos sempre amam, especialmente quando os coloca em pedestal de heróis. Isso é cultura para eles. O que podemos dizer? Entretanto, este ano eles não tem à seu dispor o perfeito herói típico, clichê dos tempos: o personagem de "Até o último homem" é um adventista que se nega a pegar em armas, mas se alista para a Segunda Guerra Mundial, no afã de resgatar os feridos no campo de batalha - mas sem defesa. O filme é dirigido por Mel Gibson e é mais que excelente. Observem a ironia do juízo de gosto: assim como musicais, eu não gosto de filmes de guerra. 

Já escrevi aqui neste mês sobre gosto. Cada um tem o seu, e gostar ou não, não obedece método, lógica, cálculo e muito menos deve ser imposto. Obviamente se La La Land vencer, seu lobby terá sido forte, a mensagem será dada: em tempos tão ruins, com pseudo entendedores de tudo, presidentes corruptos, falastrões e preconceituosos, pessoas que falam demais e odeiam demais, a temática do "viver sonhos" proposto lá na época do "american way of life" na crise de 29, se refaz com os mesmos parâmetros. E há quem compre essa "nova" velha ideia, fácil. 
Se é para evoluirmos mentalmente, que refaçamos nossas pensamentos com o olhar para o futuro, não mimetizando passados como se fossemos constituídos da mesma matéria. 
Sei que o cinema sempre foi a fábrica de sonhos. Mas não era também discurso? O olhar para aquele casal murcho de "La La Land" mostra então que basta dois rostos agradáveis, romantismo e muitos coloridos e estamos bem? Até "E o Vento Levou" é mais bruto, sinceramente.
Não digo que devemos odiar o filme por si. Novamente, vai do gosto de cada um. Mas me parece estranho pensar que ele reflete o melhor do cinema no século XXI. Sua indicação e sua homenagem ao passado só coloca luz à uma coisa que eu preferia não admitir: estamos em retrocesso?
Se é afirmativo, só posso dizer: Que pena. 

Amanhã escreverei sobre atores e atrizes que ganharam estatuetas, mas eu (repito, eu) não achei que mereciam.

Abraços afáveis!

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