sábado, 24 de setembro de 2016

Sobre a MP da Educação

Primeiramente, acho válida toda insatisfação das pessoas com essa MP da Educação. Tudo é válido, desde que não seja contraditório. Então aqui vai um textão:

Certa vez, ainda na época da graduação, conversei com umas pessoas que questionaram a minha opção de sair do curso da Matemática e prestar História. Aquela "boa" e velha pergunta "você quer dar aula?" como se fosse uma acusação de homicídio,  me fez dar uma seca resposta.
Respondi que não necessariamente, e que não via nenhum problema em ser professora. 
Uma das pessoas disse depois: 
- "Você, assim, baixa, magrinha... A molecada vai te matar! Imagina: eu gosto muito de história... Adoro estudar história sozinha e uma vez, em concurso, acertei todas as questões de História do Brasil... Mas é ruim você ter que controlar a molecada em sala com você sentada falando do passado."

Como eu posso provar para ela que ela está falando um absurdo, se eu já tive aulas assim? Já tive inclusive, bons professores de história que não eram formados, imaginem só! Os caras eram de fato bons e abriam discussões legais. Claro que eles não eram melhores que os que se formaram para fazerem isso, mas acontece. Tive tanto professor de matemática e física que eram recém formados em Engenharia que perdi as contas. Alguns eram péssimos, outros, muito bons. 
E sim, já tive aula de história em que a professora, formada ficava sentada o tempo todo. E já fiz estágio com professores que fizeram isso. Então, existe também os formados e preguiçosos. Como tudo na vida, existe o bom e o ruim.

Vejam: essa pessoa sabe que eu não imponho respeito como professora por conta do meu físico - uma coisa que é verdade, é meu e estou lutando para mudar. Mas tenho 29 anos, eu não vou crescer mais, a não ser que seja para os lados, não é?
Tenho a voz baixa, e se eu tentar falar muito alto eu sei que fica aguda e chata. O que eu posso fazer? Tentar controlar o tom e forçar para ser ouvida.
Eu queria fazer engenharia mecânica e estudar até virar do avesso para trabalhar na F1, mas não foi assim que as coisas ficaram.
No meu tempo de escola, chorei todos os dias na porta da sala, da primeira a quarta série, porque eu tive professoras com métodos dos anos 20. 
Quando cheguei à quinta série, mudei de escola e fiquei de recuperação em Matemática (meu primeiro curso de graduação) e em História (minha formação). Na sexta série eu tomei vergonha na cara. Mas nunca mais voltei a ter dificuldade em uma matéria. No "colegial", eu confesso que a única matéria que eu realmente tinha preguiça era Biologia.  Questionei porque eu tinha que saber da reprodução das plantas? Sim, mas eu sabia que era porque eu não gostava de Biologia e por essa razão essa era a única matéria que eu estudava para dia de prova.

Eu posso até ter alunos que gostem de História, mas a pessoa acabou deixando claro que dá para estudar sozinha. Ela conseguiu acertar todas as questões de um concurso, eu vou dizer que não é possível? Eu preciso acreditar nela e a partir disso, eu não posso contra argumentar que ela precisava de aulas particulares de História. 
De que forma eu poderia fazer ela acreditar que eu não vou ficar falando e falando de "passado" com uma voz de "embalando berço" e em pé? Ela precisaria me ver em sala de aula. Ela me vê assim, calma e meio ressabiada, para não dizer tímida e acha o quê? Que eu vou entrar em sala de aula gritando e fazendo mágica? Claro que não!
Eu só fui aprender a fazer apresentação de trabalho sem ficar tremendo que nem vara verde, na faculdade. Eu não conseguia falar e eu ainda fico vermelha algumas vezes, mas eu preciso fazer então eu tento da melhor forma, contornar isso, pois só depende de mim. Eu só aprendi a dar aula, montando programas no estágio e observando meus  professores. E eu sou aluna. Eu sei o que é que "a molecada" quer, porque eu já quis algumas das mesmas coisas um dia.  Mas é obvio que muitos destes alunos agora (aparentemente, porque ainda não sou professora mesmo) não estão muito lá para escola como eu era. Eu vejo pelo pessoa que chega a faculdade. Eu uso ônibus de estudantes para ir à UFU à 10 anos. Os assuntos que ouço nestes veículos não são de universitários. E quando o assunto é acadêmico, eu me assusto com algumas bizarrices. 

Essa MP é injusta em vários pontos. Governo ilegítimo ou não, é fato que essa discussão de "reforma" não tem o nome do Temer. A situação da educação brasileira é crítica. Só quem está lá, trabalhando com ela é que sabe o quão desastrosa ela está. Crianças tem ido para o ensino fundamental sem saber ler, sem saber o que é "verbo". Governos "legítimos" - para usar termos que a maioria gosta - já quis diminuir a carga horária de História no ensino médio porque e "repetitivo", já quis não exigir o ensino matemático da fórmula de Báskara no ensino fundamental, porque ela não tinha serventia.
Não sejam bobos, por favor.
Tudo que eu vejo agora é gente com suas hashtags de "Fora Temer", mas pediu cola em prova de História - que eu bem sei! Estudou em escola particular e teve aulas com professores, que eram formados em Direito, mas davam aula de Sociologia. Eu sei porque eu tive aula com um professor assim. E ele era ótimo, apesar de ser mais carinhoso e gente boa do que bom de conteúdo.
Quem trabalha com educação sabe: há muitos anos a "molecada" quer que o professor falte para que abram a quadra para jogar bola. E existe o outro tipo de aluno também: aquele que é chamado na sala da diretora porque ele apontou erros de disciplina de uma professora preguiçosa e sem ética. 
Alunos não são mais bobos. 
Essa MP, embora torta ela é - infelizmente - o primeiro passo. Afinal, eu tenho 10 anos de universidade e vejo os problemas, ouço as reclamações dos profissionais da licenciatura. Até quando vamos ficar só no blábláblá? Não se iludam, uma medida precisa ser encaminhada, e embora a que foi proposta não seja nem de longe a ideal, é preciso sempre pedir que a façam pelo menos. E que façam até chegar ao ponto do ideial: todas as disciplinas com o mesmo peso, com profissionais competentes, que tenham não certificados de educação online, mas mestrado em educação, doutoramento ou pelo menos, estudos de especialização que sejam de fato, grandiosos que proponham métodos e que atendam a todas as necessidades de alunos - sejam eles quais forem. 

Se vocês ficarem nesse "achismo" e nesse bombardeamento de bobagens que vivemos uma nova ditadura,  que estão tirando as disciplinas de formação crítica dos alunos porque não querem que pensem - vocês estão coniventes com a estagnação e o deterioramento da Educação no país, sinceramente.
Só peço que me apontem, onde é que alguém que teve, História, Geografia política, Filosofia e Sociologia na escola, durante os 3 anos do ensino médio, hoje, sabe falar de feminismo sem ser pedante, saiba falar da saída do Reino Unido da União Européia sem ser medíocre, que saiba resolver a questão racial nos EUA sem ser radical, entre outras coisas... 
Reafirmo: vocês não veem o tipo de aluno que está chegando à universidades hoje. A questão é periclitante. E muito. Então não adianta falar que está errado agora, coisas que eu e muitos já experimentamos o começo do fundo do poço.

Abraços afáveis!