segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Chapter 9 : GP da Toscana

O GP da Toscana, em Mugello, ocorreu uma semana depois de Monza e fechou a terceira tríade de fins de semana da Temporada da F1 2020. 

A prova seria especial em muitos aspectos. Boa parte dos pilotos nunca estiveram em Mugello; andar naquele traçado era novidade para eles. Oficialmente, era a corrida de número 1000 da Ferrari. Por isso, a equipe preparou algumas "surpresas" para os tifosi: uma pintura comemorativa - a Ferrari em vermelho escuro, em homenagem ao carro de 1950 -, um evento no sábado à noite, e seus pilotos poderiam ter um desempenho "interessante" na corrida. Nesse último caso, apenas um poderia ter essa "regalia" - e este era (e é) Charles Leclerc. O "demissionado" Sebastian Vettel não era e não vai continuar sendo caso a ser pensado nas corridas, daqui adiante, pela equipe vermelha, ainda mais agora que se tornou "potencialmente" rival em 2021, à correr de Aston Martin.

Não foi só isso. Haveria um outro momento preparado e esse era de encher os olhos de água: Mick Schumacher, filho de Michael, iria dar umas voltas no carro de 2004, o que deu ao Schumi pai o seu sétimo título mundial e o consagrou como o melhor de todos os tempos. Foi belíssimo de ver!

Para o evento, até o carro de segurança da Mercedes, pintou-se de vermelho em homenagem à "rival". Seria então, o único carro vermelho, na frente do pelotão em caso de utilizarem o Safety Car. O que a gente não imaginava era que esse carro, apareceria muito. Até a bandeira vermelha, foi a mais usada (risos nervosos). Mas falamos disso, daqui a pouco, pois no grid de largada havia uma estranha situação... 

Leclerc largaria em quinto, enquanto Vettel sequer tinha feito um bom Q2, no sábado. A diferença entre eles era de 9 posições: P5 e P14. Como isso não levantava suspeitas? Até Kimi Räikkönen, com a Alfa Romeo, sem querer  "homenageava" a corrida 1000 da Ferrari, se colocando à frente de uma: fez o 13º.

Não, a diferença gritante entre os pilotos da Ferrari, não levantava suspeitas. Era muito simples o raciocínio: Leclerc leva o carro nas costas, enquanto Vettel vive uma fase ruim (ou simplesmente, nunca foi essa "coca-cola toda"). Por aqui, percebe-se uma sobreposição de valores na Red Bull, mas na Ferrari, as vezes que perceberam que a equipe era injusta com um segundo piloto, foi somente quando este era um brasileiro. Jamais seria o caso da Ferrari fazer o que está fazendo com Vettel, sem motivos, não é mesmo? Alguma coisa o alemão fez de errado. E a lista, para os detratores, é enorme. 

Se tiverem oportunidade, observem a volta de classificação do Vettel. Neste link, aqui, vocês podem ter uma ideia de como foi a última volta dele, no sábado. Não tem erros. E mesmo assim: 14º tempo... Defender as circunstâncias, é chover no molhado. Porém, é um tanto engraçado, ver as pessoas "surpresas" com o problema das atualizações e cravarem com a certeza de que Vettel só sofre com o carro porque ele não se sente "a vontade" com ele, enquanto seu companheiro - reforçam na mídia - está bem pois, até carrega caderninhos de anotações debaixo do braço, o tempo todo. 

Depois do anúncio de contrato na Aston Martin, essa é a nova vida de Vettel na F1 até ele vestir o novo macacão: a evolução do carro da Ferrari já estava programa apenas para Leclerc e agora, só importa o feedback dele. Pouco importa se as melhorias funcionam ou não com Sebastian. Agora as razões para a humilhação, estão colocadas, mais às claras do que estivera depois da demissão por telefone. Agora, com uma nova casa, eles não vão apresentar para ele o que pode estar por vir de melhorias. Daqui uns dias, alguém noticia que ele nem está mais participando das reuniões sobre atualizações. Vettel ficou tempo suficiente ali para saber todos os pontos fracos da equipe. Se mostrarem a luta da melhoria para o SF1000, isso pode ser ruim para eles, no ano que vem. Talvez seja melhor, "esconder" algumas coisinhas. 

Fim de papo, certo? Vamos falar da corrida em Mugello?

Na largada, Bottas avançou e tomou a primeira posição. Hamilton, largou mal ou Bottas que largou bem?  Leclerc, que de quinto, ficou em terceiro. Verstappen foi engolido pelo pelotão. Esse seria o problema do holandês: mal piscamos, ele foi pressionado por Gasly e Giovinazzi, num toque com o primeiro, Max acabou saindo do traçado e ficando preso na caixa de brita. (Nada pessoal com Verstappen, mas pista boa, é pista com brita!) 

Ao mesmo tempo que isso ocorreu, Sainz rodou depois de tocar em uma Racing Point e Vettel, sem um lado para ir, acabou tocando nele e danificou parte da asa dianteira. Outro que teve o bico danificado foi Räikkönen.

Safety Car - vermelho - na pista e Vettel e Kimi juntos no fim do grid e de bicos trocados; Verstappen e Gasly, fora da corrida, logo na primeira volta. 

Na relargada, atrás do Safety Car, mostramos que os caras não estão muito distante do que reclamam s antigos fãs, chamadas de "viúvas". A pista é estreita. relargadas com muita frenagem ia dar engavetamentos... A falta de noção espacial de alguns que gostam demais de simuladores, poderia ser complicado. Mal habituados à esse tipo de pista, a lambança foi feia. Lá no meio do pelotão, Giovinazzi entrou de cheio em Magnussen que bateu em Sainz e que sobrou também para Latifi. 

Em tese, Bottas tinha demorado a sair, Hamilton também não ajudou, e os que vinham atrás foram tentando arrumar espaços e algumas freadas bruscas poderiam comprometer a largada. Pelas imagens, parecia que alguém tinha feito exatamente isso e quando viram, um strike aconteceu em uma fração de segundos.

Assim como no incidente da primeira volta, procurava-se um culpado, como se houvesse uma razão de ser. Na real, Giovinazzi e Sainz quiseram dar um pulo do gato, mas não tiveram sangue frio ou reflexo rápido o suficiente para não baterem. O halo - esteticamente horrível - salvou mais um. O acidente foi feio, Sainz reclamou de dor na mão, mas garanto que chamou a atenção da audiência. 

Carro de segurança na pista, pouco depois, carro vermelho encaminhava todos para os boxes: a bandeira vermelha foi acionada, afinal, havia muito pedaço de carro e 4 a serem recolhidos. Estavam fora - mas fisicamente bem, graças! - Giovinazzi, Magnussen, Latifi e Sainz. Não tínhamos 5 voltas de corrida livre, e já tinham 6 pilotos fora dela.

Na tela, era volta 8. Houve uma falha nos freios e Ocon ficou nos boxes mesmo. Em 45 minutos de pausa, 13 carros somente, iam para a disputa e apenas Stroll - dos que estiveram no pódio em Monza, continuava na pista em Mugello. Essa sim, era "corrida maluca", até aquele momento. 

Era óbvio que, na segunda largada, Hamilton não "comeria mosca", mas Bottas sim. Dito e feito: ele perdeu a primeira colocação para o "genial" companheiro. Leclerc tentava segurar as duas Mercedes rosa e mais a RBR restante, de Albon. Depois da volta 15 a proporção era: enquanto Ricciardo alçava posições, Leclerc as perdia. O monegasco tomava "passões" e parou depois da volta 20, voltando em 13º, isto é, em último.

Stroll era o terceiro à essa altura, Ricciardo, o quarto e Albon, o quinto. Havia uma possibilidade de pódio do australiano, e isso era o que boa parte de nós estávamos torcendo por acontecer, uma vez que uma falha nos carros das Mercedes, era uma possibilidade só em sonhos. As paradas aconteciam, mas desde os incidentes do começo, as voltas foram se tornando triviais...

Lá pela volta 40 (ou mais), Stroll estava sendo seguido de perto por Ricciardo e Albon. O canadense tinha uma distância enorme das duas Mercedes. Bottas queria retomar a primeira posição. Era muita pretensão que isso aconteceria. Mas, então, Stroll perdeu o controle do carro e bateu forte. Estava bem, e para tirar o carro destroçado, com segurança, um Safety Car vermelho não bastou. Era preciso uma segunda bandeira vermelha. 

A chance de Bottas em retomar a posição estava "dada". Mas o que ele fez na segunda largada? Não só não conseguiu avançar sobre Hamilton que fechou a porta total, como ainda perdeu a segunda colocação para Ricciardo. Está certo que ele recuperou na volta seguinte, mas acham mesmo que ele conseguiria colocar banca e tomar a primeira posição de Hamilton duas vezes, numa mesma corrida? Impossível! Ele até negociava uma estratégia diferente para atacar Hamilton, mas mesmo que pudesse e quisesse, há muito mais aí do que pressupunha a vã filosofia do finlandês.

A corrida se desenhava então, com resultados óbvios e um alento: a terceira colocação seria ou de Ricciardo ou de Albon. Isso, se ninguém batesse de novo. Confesso que até que achei que isso ia acontecer. No entanto, Raikkonen - que havia entrado nos boxes bruscamente, nas paradas anteriores -, tomaria 5 segundos de punição. Nessas 15 voltas finais veio a situação: muita gente queria Ricciardo no pódio para ver o chefe da Renault ser tatuado, poucos defendiam a necessidade de um pódio ser muito mais importante para Albon, mais alguns ainda queriam que Russell marcasse seus primeiros pontos com a Willimas...

Quase caminhando para o fim, Albon passou Ricciardo, Kimi tentava tirar o máximo do carro para se manter na zona de pontuação, e Vettel lutava para manter a décima colocação. No final, a dobradinha da Mercedes. Um "emoção" de Hamilton voltou o assunto de corrida difícil - que não foi tanto assim. Com as pausas, o desgaste físico foi bem amenizado. Se ele tivesse no meio do pelotão, justificaria a pressão psicológica. Não era o caso, foi mais um pouco de encenação. A Mercedes entrega entretenimento bom: tem show de potência, e um ator digno de Oscar.

Pelo menos, Hamilton está fazendo o que se espera dele. Antes do GP de Toscana começar, Lewis apareceu com uma camiseta pedindo a prisão de policiais que assassinaram Breonna Taylor, há seis meses atrás e que foi um dos casos que motivaram a luta "Black Lives Matter" deste ano, sobretudo nos EUA. É claro que, ele escolhe estrategicamente os momentos para falar sobre a injustiça racial e normalmente só faz em frente às câmeras. Fiquei realmente intrigada, no GP passado, pois parecia que em Monza, não houve esse assunto. Na Toscana, um "plus" interessante: no pódio, ele vestiu a mesma camiseta com os dizeres: "Arrest the cops who killed Breonna Taylor" - em tradução: "Prendam os policiais que assassinaram Breonna Taylor". O fato de usar essa camiseta no pódio, sob o macacão acabou por tampar os patrocinadores. 

Ainda não é um ato "gigante" como li no Twitter. Vai ser quando ele começar a revelar o que isso está significando enquanto resultado e sacrifício. Por hora, ele está tendo total (*) apoio da Mercedes, da Petronas, da FIA, e da Liberty (que sabe que hoje, isso faz lucrar). Mas, até que ponto isso não está incomodando os grandes homens por trás da grana? Ou não mais? O mundo realmente mudou?

Enfim... Sobre o resultado da corrida, ficamos felizes, ainda que em partes, que Albon conquistasse seu primeiro pódio. Não que isso resolva para Helmut Marko e cia, mas é bom saber o que Albon sabe fazer quando precisam dele - ainda que isso tenha sido possível pois Max estava fora. Precisamos pensar que, se Albon não fizesse por onde, isso teria piorado a sua (suposta) situação em relação ás decisões administrativas da RBR, .

E mesmo com a punição, Räikkönen marcou o 9º tempo e se colocou entre as Ferraris? Kimito é show! Sim, as Ferraris fizeram P8 e P10. Marcaram pontos e não foi um abandono duplo como foi em Monza. Um resultado morno para a data, mas poderia ser bem pior na comemoração da corrida 1000. O pesar do dia realmente foi Russell, que não conquistou seus pontos, embora tenha sido, quase. 

Temos uma semana de pausa, e no outro fim de semana uma corridaça: o GP da Rússia! #sarcarmo 

(*) Atualização: Me enganei que havia total apoio... a FIA abriu uma investigação sobre o uso da camiseta pautada numa manifestação política o que é proibido por regra. 

Mas as minhas reflexões seguem inabaláveis: até que ponto isso não incomodaria os grandes? Vai se falar muito em hipocrisia, mas e a questão do incômodo, do cutucar feridas abertas?  Das pessoas que estão sendo envolvidas nisso e nem tem maturidade para lidarem com toda essa questão? Soava como se, pela imagem, estava tudo ok para Lewis. A Mercedes o defende, pois diz que ele não fala de política, fala em direitos humanos. Até que ponto, humanos não são seres políticos?  

É um momento sensível, de eleições presidenciais. Passaria ileso? E se outro piloto, usasse algo, uma referência ao governo de sua nação? Teria todo esse apoio? Não teria? E porquê? 

É claro que não estava tudo bem. Era isso o que eu dizia. Não é post no Instagram que vai começar o diálogo com os surdos por conveniência. Quando ele fizesse alguma coisa potentemente forte, era aí que ele veria que a luta é dura, pesada,  e não uma foto qualquer na rede social. Agora, será que entendem? E entendem que é agora que ele se sacrifica e ele não pode se deixar derrubar? Ele tem que persistir sem cessar. Mesmo que isso custe caro. (Mas não vai, podem ficar calmos...)

Da nossa parte só cabe acreditar, que a mudança virá e que essa investigação é apenas "alarde", um recado das autoridades. Talvez não seja nada disso. Podem muito bem estar querendo apenas evitar que isso se torne uma prática comum e não uma corte de manifestações.

Boa tarde.

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