segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Novelinha da F1 - Capítulo 19: GP dos EUA

O GP das Américas havia se desenhado antes mesmo (talvez) dos treinos livres. E eu já havia trabalhado um pouco com as minhas expectativas para evitar qualquer frustração e ilusões. 
Assim, viria para a postagem pós corrida, precavida: Para evitar um texto longo e ranzinza como foi o do México, refiz os convites aos amigos mais eloquentes no assunto F1. E garanti não só um texto excelente para vocês, como dois, porque a Manu aqui, é dessas. 
Primeiramente, insisti com o Ron Groo, companheiro de blogs, de Fantasy da NFL e um comentarista de música de primeira, para fazer uma contribuição para mim. Este ano, ele deu uma parada nos suas postagens da F1, mas a meus pedidos, fez ontem esse texto delicioso para um GP morno e (porque não?) sem graça lá em Austin.
Confiram!!

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Grande Prêmio das Américas - por Ron Groo 

Ultimamente tenho preferido ver jogos da NFL, quando a temporada está em andamento, do que corridas de F1 que conflitam nos horários.
Até porque, os conflitos geralmente são com os monótonos GP’s do México, que nem vi por não ter energia elétrica no bairro e o GP dos EUA, no não menos monótono Circuito das Américas.
Porém, no entanto e com tudo... Esta edição poderia sagrar o campeão da temporada.
Como foi no ano passado e como tem ficado meio manjado desde a aquisição da F1 por um bando de americano esquisito.

E já que falei em NFL, vou traçar um paralelo meio bobo para a situação de Lewis Hamilton neste momento.
Hamilton seria o kicker no momento de chutar o field goal que pode dar a vitória para seu time nos minutos finais do quarto período.
E nem é um field goal de longe não... Um field goal da linha de dez jardas. 
Coisa que para bons kickers é chamada de: “automático”.
Para ser campeão nesta corrida, Lewis precisa de apenas quatro pontos.
O bom kicker pode errar? Claro...
Lewis pode não marcar os quatro pontos? Também... 
Mas para qualquer analista (bom ou ruim) tanto do FA quanto da F1, ai é automático.

Começa que larga da quinta posição enquanto o único que pode lhe tirar a chance de ser campeão nos EUA (porque lhe tirar o título é algo que ninguém no universo acredita que possa acontecer) sai da pole.
Porém, esse tem sido um campeonato de seis carros: dois da Mercedes; dois da Ferrari e – teoricamente – dois da Red Bull.
Em uma corrida com nível de azar médio, ele seria o sexto colocado e já bastaria.
Em uma com nível de azar hard, não completa a prova. Com tempo bom, condições normais e conhecedor da “bundamolice” dos que estão prestes a ganhar o título com antecedência, o nível hard é quase impensável.

A largada trouxe uma surpresa: Hamilton passa as duas Ferrari ainda antes de completar a primeira volta.
De quinto, passou a primeira volta em terceiro.
Vettel transformado em corre mão de estação viu todo mundo passando por ele, inclusive a McLaren de Lando Norris.
Se tinha alguma esperança do segundo piloto da Mercedes, com esta largada deve ter perdido. 
Todo castigo pra trouxa é pouco. Dane-se segundo piloto da Mercedes.

E com sete voltas a coisa ficou como todo mundo esperava.
Com o segundo da Mercedes na frente, sem ser atacado, e Hamilton tranquilo em terceiro, com mais de cinco segundos à frente do Leclerc e chegando sem forçar na Red Bull do Verstappen.
Para ajudar, naquela narrativa dos seis carros, Vettel quebra a suspenção e abandona.
Agora são só cinco carros... O chute que seria automático parece que vai ser sem a defesa para tentar atrapalhar.

E a monotonia se seguiu passando pela troca obrigatória de pneus onde os que importavam optaram por pneus duros para tentar não trocar mais.
Hamilton foi o último a parar e voltou à pista em terceiro. Mais do que suficiente para a conquista maior do dia.

Mesmo com a surpreendente segunda parada do segundo piloto da Mercedes, nada de competitividade.
Outros seguiram na estratégia de mais uma parada.
Sem Vettel, e com Leclerc andando fora de combate, a conta dos seis carros caia apenas para quatro e com menos um, já que Albon também não combatia ninguém que importasse.
A monotonia já fazia com que eu me arrependesse de não estar assistindo NFL.

Faltando quatro voltas, o segundo piloto da Mercedes ataca Hamilton que nem faz esforço para se defender.

A bola foi colocada na linha de dez jardas, Hamilton foi lá e chutou no meio do Y, FG good.
Com o tempo que falta para o fim do jogo, mesmo fazendo TD, Bottas é derrotado.
Que bom que este campeonato já acabou...

***

É isso! Ainda bem que acabou! 
Antes de fazer meus comentários, queria agradecer muito o Ron Groo, por ter lançado mão de um texto ótimo, com referências à NFL (esporte que poderíamos ter continuado assistindo e teria sido mais produtivo) o que fez o GP em Austin parecer ótimo. 

De todo, não pudemos ter todas as flores do jardim. Tivemos os espinhos: transmissão mequetrefe (como sempre) com comentários raivosos sem propósito.
Ao final do chato circuito,  e com a vitória de campeonato de Hamilton, também não pudemos fugir daquela boa e velha premissa cantada em coro pelos comentaristas e jornalistas de que Lewis  é incrível e que estávamos presenciando a história sendo escrita. 

O sexto título nos apareceu em momentos muito fáceis e com carros e equipe altamente equilibrada. Sigo entendendo como seu primeiro título o único digno de nota, mesmo que tenha vencido por pouco às custas das más escolhas da Ferrari (sim, desde aquela época). Os demais cinco títulos, Lewis correu sozinho, com rivais de dois tipos: um companheiro sem muita voz na equipe - embora tenha saído da categoria com um título (escapado) debaixo do braço - e um tetra campeão correndo de Ferrari, equipe aniquilada desde meados dos anos 2000. Só Michael Schumacher reergueu a Ferrari e mesmo assim, demorou alguns anos.
Oportunista, Hamilton aproveitou do equilíbrio externo para ser particularmente glorioso em uma carreira com o mesmo motor desde que pisou na F1. Ao menor sinal de crise, se desestabilizou. Coloquem aí que em 2020 ele alcança o cara (o mesmo que salvou a Ferrari de um marasmo) que desenvolveu o carro para a Mercedes ser o que é hoje, juntamente com outro campeão, o Niki Lauda, e teremos o sétimo título tão fácil quando foi este ano para "Reimilton". Graças à um companheiro tolhido e limitado. Graças à uma rival incoerente e perturbadoramente burra. Graças à outra rival, por ser totalmente inconstante. 
Adianta escrever tudo isso? Obviamente que não. Parece desmerecimento puro e simples. Talvez até seja. 
Mas sinto uma latente falta de um coração cheio de emoção por presenciar, ter acompanhado essa tal história importante para o esporte sendo escrita.  Faz tempo, desde 2013, não olho para tv achando as reações de vitórias genuinamente bonitas, independentes de torcer ou não pelos pilotos que estão felizes pelas conquistas. É uma sensação que nem lembro mais como é. 

Volto mais tarde com outro texto, dessa vez do Márcio Kohara!

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*Atualização da tarde*

Aproveitando o assunto, já compartilho com vocês o outro texto produzido para esse espaço, dessa vez do Márcio, que mandou muitíssimo bem num texto mais técnico e analítico. 

Obrigada mais uma vez, Ron e Márcio pelos textos. Ficaram excelentes! Nem precisarei fazer adendos sobre a corrida de ontem, pois tudo necessário foi contemplado por ambos. 

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Deitou - por Márcio Kohara

A vaca deitou. Talvez não seja como se espera para o início de um texto sobre Fórmula 1, mas é a sensação que temos depois deste Grande Premio dos Estados Unidos, disputado em Austin, capital do Texas. O campeonato mundial de pilotos finalmente deu seu último suspiro e Lewis Hamilton conquistou matematicamente o seu sexto título mundial ao chegar na segunda colocação em Austin. O título parecia tão assegurado que já haviam sido feitas pinturas relativas a comemoração no parque fechado do circuito. E assim aconteceu. 
Claro que o título de Hamilton não aconteceu apenas e tão somente pelo desempenho deste domingo no estado da estrela solitária. Mas, se a vaca citada no início do texto se mexeu em Austin, pode ter sido em decorrência das ondulações da pista e não de alguma emoção que a disputa do campeonato tenha provocado. 
Este final de semana foi dominado por Valtteri Bottas, que era o único piloto com alguma chance de reverter a situação e cumpriu a sua parte da missão, vencendo. Mas o piloto do carro 44 seria campeão mesmo se ficasse com a oitava posição. Apesar de não ter ido bem na classificação e ter largado apenas na 5a colocação, nunca esteve fora da zona que o garantia o título, largando bem e chegando a liderar a corrida. Alcançou a meta final em segundo, se dando ao luxo de arriscar uma vitória que, aqui entre nós, quase aconteceu (a alternativa em certo momento da prova era trocar os pneus desgastados e chegar em segundo ou seguir e tentar a vitória -o que havia dado certo na semana passada no México).
Parece que faz uns três anos, mas na pré temporada parecia certo que a Ferrari tinha finalmente produzido um carro capaz de brigar pelo título e capaz de impedir a festa anglo-germânica. Esta sensação se dissipou ainda no começo do campeonato, permitindo que a Mercedes vencesse as oito primeiras etapas do campeonato. A verdade é que a ideia de que o baixo arrasto frontal seria algo que poderia fazer com que a equipe italiana pudesse se destacar nesta disputa foi um grande equívoco e em nenhum momento a Ferrari teve um carro convincentemente competitivo, mesmo tendo vencido 3 etapas desde então. Este problema ainda não foi resolvido, e já estamos em novembro. E em Austin este pesadelo voltou a incomodar os italianos, que tiveram problemas de desempenho em decorrência do carro que tinha tendência de sair de frente de forma exagerada. A suspensão traseira esquerda do monoposto número 5 de Sebastian Vettel ter implodido na curva 10 da oitava volta não ajudou em nada, mas mesmo Charles Leclerc, que terminou em quarto, foi incapaz de seguir o ritmo das Mercedes. 
Por outro lado, quem também se tornou uma postulante a vitórias no decorrer da temporada foi a Red Bull. Mas o começo de 2019 apresentou um desafio grande para os austríacos, que recebiam o contrato oficial das unidades de potência da Honda. A verdade é que a equipe oficial dos energéticos nunca entrou na briga pelo título, apesar de terem até lutado pela vitória em Austin contra a Mercedes e, mais importante, terem conquistado duas vitórias no ano. A melhora no desempenho da Red Bull faz imaginar que ano que vem pode não ser tão previsível quanto este (mas esta é uma sensação que temos há uns quatro anos e ela nunca se concretiza).
O campeonato já parecia decidido desde Shangai. Se o Bahrein deu alguma esperança para a Ferrari por causa da quase-vitória-por-causa-da-quebra de Charles Leclerc, depois ficou claro que as Flechas de Prata eram o melhor carro disparado. Assim, os últimos seis meses foram apenas para confirmar aquilo que já parecia certo no campeonato, que cedo ou tarde Lewis Hamilton se sagraria pela sexta vez campeão mundial de Fórmula 1.
E Valtteri Bottas? Bom, em algum momento da temporada, é verdade que o finlandês chegou a parecer que poderia fazer frente ao seu companheiro de equipe. O piloto do carro 77 é capaz de finais de semana brilhantes como este de Austin, ou de Suzuka, quando abre vantagem e domina a corrida. Mas o finlandês é instável, não parece capaz de repetir constantemente estas boas apresentações. A sensação de que Bottas poderia, finalmente, equilibrar uma disputa de campeonato e levar até o final também se esvaiu ainda no começo da chamada temporada europeia. O ponto mais baixo da temporada do finlandês, como de toda a Mercedes, foi em Hockenheim, quando Bottas tinha uma boa chance de vencer a prova, mas acabou abandonando ao rodar sozinho e bater no final da corrida.
Geralmente, o melhor das corridas de Fórmula 1 tem sido as brigas no pelotão da confusão, entre a segunda Red Bull, Mclaren, Renault, Toro Rosso e Racing Point, com Haas e Alfa Romeo um pouco atrás. A corrida norte americana não fugiu ao roteiro usual. Disputas entre Alexander Albon, Daniel Ricciardo, Lando Norris, Carlos Sainz, Sérgio Pérez, Nico Hulkenberg, Daniil Kviat e Pierre Gasly garantiram um bom período de entretenimento da tarde no Texas.

Albon foi o nome da corrida após ser atingido por Sainz na primeira curva da corrida e cair para a última posição, mas fez uma notável corrida de recuperação e chegou em quinto. Outros destaques ficam com Ricciardo e Norris, que tiveram ótimos desempenhos e terminaram em sexto e sétimo. Sainz, Hulkenberg e Perez, depois de uma punição de cinco segundos a Kvyat, fecharam a zona de pontuação. A melhor volta foi de Charles Leclerc, o último das equipes grandes a trocar de pneus.

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Selamos mais um ano de F1 literalmente. Temos agora apenas duas corridas que servirão para fechar a tabela. Uma destas corridas ainda vale a pena conferir por ser um circuito tradicional e que é quase sempre imprevisível. A última, em Abu Dhabi, só assistiremos porque sabemos que depois ficaremos sem essa maldita (que parece roteirizada) F1 por uns 3 meses. 
A única "decisão" ainda pendente é o terceiro lugar que no momento está com Charles Leclerc. Além dele, Max Verstappen está à espreita e Sebastian Vettel também pode fazer pressão, afinal os pontos estão em 249 para o monegasco, 235 à Max e 230 à Vettel - que prejudicou-se pelo DNS ontem. 
Uau! Que empolgante, não?
Os comentários estão finalmente abertos. Espero que tenham se deliciado com os textos dispostos hoje para vocês, tanto quanto eu!

Abraços afáveis e boa semana para todos!

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